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Revista O Mundo da Usinagem nº 113

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Nossa Parcela de Responsabilidade

De braços abertos para o digital

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Por Sean Holt | Traduzido e editado por Vera Natale, editora OMU 

Presenciamos algumas mudanças bem significativas no cenário metalmecânico nesses últimos 20 anos. As máquinas-ferramenta se tornaram mais rápidas e muito mais complexas. Programas CAM e outros softwares ampliaram enormemente suas capacidades. As soluções de usinagem e de ferramentas de corte vêm acompanhando o ritmo contínuo das demandas por usinagem de alto desempenho, redução dos custos das peças e, ao mesmo tempo, maior vida útil da ferramenta e, não menos importante, a melhora dos processos para a indústria da manufatura ao redor do mundo. 

No entanto, a maior mudança ainda está por vir. Hoje, enfrentamos um cenário da manufatura completamente novo, amplamente definido por dados. O novo paradigma da manufatura, ou da Indústria 4.0, IIoT (Industrial Internet of Things – Internet das Coisas Industrial), manufatura digital — ou o nome que você quiser dar —, reside em coletar, gerenciar e utilizar dados para otimizar os processos da fábrica e ainda com a promessa de mudar o mundo. 

Esses dados virão de sensores incorporados em nossas máquinas-ferramenta e serão capazes de monitorar o consumo de potência e a temperatura do motor. Os dados também virão do controle da máquina, que poderá facilmente proporcionar informações sobre como a operação está funcionando, quantas peças foram concluídas, e qual operador (ou qual robô) está atualmente lidando com a máquina. E ainda de câmeras, paquímetros digitais e máquinas de medição digital e até mesmo de ferramentas de corte, com dispositivos incorporados que irão rastrear as vibrações e forças de corte. 

O consultor de gestão Peter Drucker já disse uma vez: “se você não pode medir algo, você não pode melhorá-lo”. Fábricas inteligentes prometem medir tudo. 

Obviamente, os dados por si só não significam nada. É o que se faz com eles que conta. Por exemplo, sistemas que monitoram as vibrações durante as operações de usinagem prometem aumentar muito a taxa de sucesso da usinagem sem monitoramento, o ajuste automático dos parâmetros de corte para compensação do desgaste da ferramenta e a obtenção do acabamento superficial desejado. Coletar tendências sobre o aumento da temperatura em uma matriz de fundição e usar esses dados para melhorar a qualidade da peça é outro benefício potencial do Big Data. Da mesma maneira, é possível prever a quebra da ferramenta, ou aumentar a visibilidade dos níveis de produção, pela análise dos dados do chão de fábrica. 

A Indústria 4.0 promete interconectar sistemas, e apresentar os gigabytes da informação coleta da em um formato relevante, ou seja, que nós humanos possamos usar para tomar decisões. Computadores baseados em sistemas em nuvem irão alojar quantidades massivas de informação que podem ser seguramente compartilhadas em networks globais. Softwares baseados em nuvem irão facilitar a troca de ideias e colaboração em projetos por parte dos usuários. 

E as ferramentas de nosso negócio — centros de usinagem e tornos, equipamentos de metrologia como apalpadores de inspeção e calibradores, pré-setters, robôs e sistemas de manuseio automático — estarão cada vez mais interconectadas via interfaces comuns, e aumentando enormemente a eficiência das operações fabris. Essa é a essência da manufatura inteligente. 

E isso vai demandar trabalho em equipe. Fornecedores de ferramentas de corte, fabricantes de máquinas, fabricantes de softwares CAM, especialistas em tecnologia, e fábricas de todos os portes deverão unir forças e compartilhar informações de maneira cooperativa. Afortunadamente, as empresas parecem estar fazendo o que é necessário. A Sandvik Coromant já tem trabalhado em parceria com renomados líderes da indústria a favor dessa tendência digital. Não estamos sozinhos. 

Aliás, essa tendência digital irá requerer uma mente aberta. Maneiras antigas de pensar devem ser abdicadas em prol da vontade de abraçar novas ideias e novas tecnologias. Devemos “alimentar”, ensinar e direcionar para a indústria os jovens que cresceram nessa era de videogames e smartphones, e também permitir que usem a criatividade deles. E os gestores, por sua vez, devem aprender a capitalizar em cima das informações disponibilizadas por todo esse mágico aparato digital. 

É um momento entusiasmante. E posso dizer que estou contente em fazer parte dele e de ter compartilhado conhecimento e opiniões com colegas e pares na indústria ao longo dessas duas últimas décadas. Podemos esperar uma jornada emocionante para os próximos anos. 

Sean Holt é Presidente da Sandvik Coromant, região Américas Sean Holt é Presidente da Sandvik Coromant, região Américas

Conhecendo um Pouco Mais

Autonomia, segurança e conforto

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A Volvo Cars vai abrir o ano novo mostrando na prática que o futuro guiado pela inovação é agora 

Por Rodrigo Tramontina 

Fabricar carros que correspondam aos sonhos de consumo mais exigentes é meta da indústria automotiva. Cada vez mais o consumidor espera que as marcas superem desafios e lancem veículos mais conectados, confortáveis, seguros, leves, bonitos, autônomos. O XC90, da Volvo Cars, é o único SUV vendido no Brasil equipado com auxílio à condução, que conta com sensores e câmeras que monitoram as faixas das vias e um sistema que comanda a aceleração, a frenagem e a movimentação do volante em velocidades de até 130 km/h. Na prática, isso permite ao veículo rodar, por alguns segundos, sem interferência do motorista nos pedais ou na direção. 

Entre os recursos tecnológicos apresentados ao mercado está o Pilot Assist de segunda geração, que chegou à linha 2017. Como o sistema anterior era limitado a 50 km/h, a nova geração do Pilot Assist passa a atuar não somente em situações de tráfego intenso nas grandes cidades, mas também oferece conforto e segurança na condução do veículo em rodovias. Em qualquer uma dessas condições, são vários os benefícios do equipamento, que auxilia o motorista a manter a velocidade programada, interagindo continuamente com a direção, a aceleração e o freio para centralizar o veículo na faixa. Assim, o esforço do motorista em deslocamentos longos também pode ser minimizado pelo uso dessa tecnologia. 

Pilot Assist pode ser ativado a qualquer momento pelo motorista e seu pleno funcionamento depende de faixas bem demarcadas na superfície da pista. Quando possível, o assistente de direção auxilia na correção do deslocamento do veículo, por exemplo, ao contornar curvas abertas em rodovias. 

Apesar de não necessitar de um veículo à frente como referência, o assistente de direção faz uso das funcionalidades do Controle de Cruzeiro Adaptativo (ACC) para controlar a distância do carro adiante ou a velocidade configurada. 

O motorista deve estar sempre no controle do automóvel, com as mãos no volante, para manter o sistema funcionando. O condutor tem ainda a possibilidade de intervir no Pilot Assist via acelerador, freio e volante, de acordo com sua vontade. Caso ele queira mudar de faixa, a seta indicadora aborta temporariamente o assistente de direção. O acionamento do Pilot Assist é feito de forma intuitiva, por meio de um botão à esquerda no volante. 

 

Tecnologia ilimitada 

A tradição da Volvo e a preocupação com a segurança traz para o XC90 a mais completa tecnologia para evitar acidentes. Todos os equipamentos são de série no SUV de luxo, como o Sistema de Alerta de Mudança de Faixa, que aplica força no volante se o carro está saindo da faixa intencionalmente, enquanto o Sistema de Alerta ao Motorista detecta e avisa motoristas desatentos ou cansados, por meio de um sinal visual e sonoro. 

O XC90 é o primeiro carro no mundo com tecnologia que aciona automaticamente os freios, caso o motorista tente virar à frente de outro carro que venha em sentido contrário. É uma situação comum em cruzamentos nas cidades, bem como em estradas, nas quais os limites de velocidade são maiores. O SUV detecta um potencial choque e freia automaticamente, tanto para evitar a colisão como para reduzir as consequências do acidente. 

Na estrada, sair da pista pode provocar um acidente, por diferentes causas, como distração do motorista, fadiga ou más condições do clima. O sistema de proteção em saída de estrada registra situações como essas e aciona os outros sistemas de prevenção de impactos aos ocupantes, como tensionar os cintos de segurança para manter as pessoas na posição mais protegida. 

Um dos principais elementos de prevenção e redução dos impactos aos ocupantes é o design dos bancos do XC90, que inaugurou a nova geração do inovador Sistema de Proteção contra Lesões na Coluna Cervical (WHIPS) com dispositivo pré-batida, que previne ferimentos no pescoço. 

O XC90 dispõe também da última geração do controle eletrônico anti-capotamento e do City Safety, que agrupa todos os sistemas de frenagem automática da Volvo Cars. Esse recurso tem visão noturna e auxilia o motorista no caso de alto risco de colisão com outro veículo, pedestre ou ciclista, com uma estratégia de alerta e de ajuda na frenagem. O modelo conta ainda com o Volvo On Call, um serviço de segurança, proteção e conveniência que oferece assistência 24h, auxílio de emergência e localização, em caso de roubo ou furto. 

 

Futuro sofisticado 

O XC90 é vendido no Brasil em duas versões de acabamento, Momentum e Inscription. Em ambas, os itens de conforto estão concentrados na tela central de 9 polegadas sensível ao toque, que permite ao motorista e passageiro controlarem o sistema de som premium, o Sensus Navigation Pro e o ar-condicionado digital com quatro zonas individuais de refrigeração. 

Os bancos dianteiros trazem regulagens elétricas de posição, de ajuste lombar e de apoio das pernas, aquecimento e memória, enquanto os assentos traseiros contam com booster integrado, para crianças. A terceira fileira com bancos individuais é de série em todas as versões. 

Assistente de estacionamento, que manobra o carro automaticamente em vagas perpendiculares e paralelas, sistema de monitoramento de pressão dos pneus, painel de instrumentos de 12,3 polegadas, faróis principais e de neblina com iluminação 100% em LED estão igualmente presentes. 

O motorista também pode escolher seu modo de condução entre Confort, Eco, Dynamic e Off Road, por meio de um seletor no console central. Cada um deles oferece um ajuste específico para motor, transmissão, direção, economia de combustível e até mesmo o layout do painel. 

Dois itens de diferenciação da versão topo de gama demonstram o nível de modernidade do SUV da Volvo: o sistema de áudio, um dos melhores já desenvolvidos para um automóvel, em parceria com a Bowers & Wilkins. São 1.400 watts, 19 alto-falantes, incluindo um dos primeiros subwoofers air-ventilated instalados em um carro, e um software de processamento de áudio de última geração que simula, dentre outros ambientes, a sala de concerto da Orquestra Filarmônica de Gotemburgo. Essa configuração traz, ainda, o sistema de suspensão por bolsas de ar. Isso habilita o motorista a ajustar, nos modos de condução, a altura mais adequada de rodagem, de acordo com o piso. A altura da carroceria também pode ser ajustada para funções específicas, como a de carga do porta-malas. 

Outro item exclusivo é o Head Up Display, que projeta as principais informações do painel à frente do motorista, além do teto solar panorâmico. O XC90 Inscription adiciona ao já completo pacote de segurança os alertas de tráfego lateral e de colisão traseira, além do BLIS – alerta de ponto cego – e o inovador sistema de Visão 360º, que projeta na tela central uma visão aérea completa ao redor do veículo. 

O Pilot Assist garante segurança e conforto ao motorista e passageiros O Pilot Assist garante segurança e conforto ao motorista e passageiros

 

Inovação premiada 

A Volvo Cars tem motivos para comemorar. O utilitário esporte de luxo XC90, da Volvo, venceu a categoria Inovação do prêmio “Os Melhores 2017”, do Jornal do Carro, de O Estado de São Paulo. O modelo saiu na frente dos concorrentes por ser o mais inovador e seguro já produzido pela Volvo em sua história. 

Além do prêmio de inovação, a fabricante sueca também ficou com o primeiro lugar na categoria SUV Médio com o XC60 no Selo Maior Valor de Revenda – Autos 2016, organizado pela Agência AutoInforme. 

Feito com base na cotação da Molicar, o estudo de depreciação de veículos automotores é o indicador que aponta os modelos que menos desvalorizaram após um ano de uso. Esse reconhecimento é particularmente importante para a marca, porque ajuda a desmistificar a ideia de que veículos importados perdem mais valor do que os carros produzidos no Brasil. 

“A partir desse resultado, os produtos da Volvo – e o maior exemplo é justamente o XC60, o veículo mais vendido da marca no país – ganham mais um forte argumento de venda, que agora se somam à segurança, à inovação e à confiabilidade, atributos que sempre acompanharam o nome da companhia”, afirma o diretor de Marketing, Leandro Teixeira. 

Foram considerados os preços praticados no mercado de carros zero em agosto de 2015, e não os preços de tabela. O estudo considera as diversidades ocorridas no mercado na época da cotação — disponibilidade do produto, bônus concedidos pelas fábricas e repassados ao consumidor, entre outros fatores — eliminando eventuais distorções de preços provocadas por essas ações. Os carros que tiveram modificações consideráveis nos últimos doze meses foram eliminados, para que a comparação não comprometesse o resultado do estudo. 

Negócios da Indústria II

Diálogo afinado

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Chineses estão chegando para trabalhar com brasileiros em times multiculturais 

Por Hsieh Ling Wang* 

É cada vez maior o número de executivos e profissionais chineses que chegam ao Brasil para trabalhar, ao lado dos brasileiros, em empresas de transportes, equipamentos, energia, mineração, eletroeletrônico, telecomunicações. Eles vêm para fundar ou administrar empresas chinesas, que obedecem à lógica de internacionalização do país asiático na busca por insumos, como petróleo, minérios e alimentos, e acesso a mercados. 

O aumento nas relações comerciais entre Brasil e China impõe às empresas a necessidade de incrementar esse relacionamento — não só a partir da compreensão das melhores práticas comerciais, mas, sobretudo, da avaliação precisa dos efeitos das diferentes culturas na maneira de fazer negócio. 

A maioria dos chineses chega ao Brasil com experiência internacional, mas isso não significa que não enfrentarão dificuldades relacionadas às diferenças culturais. 

Mais do que estranhamento, essas diferenças — que abarcam valores, mitos, tabus, crenças, hábitos e costumes — podem gerar um desconforto na convivência de times multinacionais, capaz de comprometer o sucesso do negócio. Sendo assim, para que chineses e brasileiros possam conviver e trabalhar confortavelmente, é fundamental que ambos tenham conhecimento da cultura do outro e estejam dispostos a aprender e desenvolver novas competências interculturais. 

Nesse processo, os líderes são fundamentais. A eles, cabe a tarefa de engajar cada membro da equipe, considerando as competências habituais e o perfil intercultural de cada um, no trabalho integrado e harmonioso, no qual impera o respeito mútuo. Ao profissional, por sua vez, cabe exercitar a capacidade de manter a mente aberta para as diferenças. 

Apesar das diferenças culturais, muitos pontos em comum são observados entre os times sino-brasileiros, como mostram os aspectos abaixo, que devem ser analisados por cada um dos gestores em seu dia a dia: 

• Percepção de hierarquia – “Prefiro estruturas hierárquicas ou não-hierárquicas?”
As duas culturas têm alta percepção de hierarquia. Para elas, as diferenças de status são aceitas como normas, especialmente por aqueles em posição inferior. 

• Relacionamento versus Orientação para tarefa – “O que é mais importante para mim: o relacionamento ou a tarefa?”
Em negócios, o que é mais relevante: concentrar-se na tarefa a ser realizada e resolver o problema de maneira eficiente e imediata? Ou criar e manter um ambiente de trabalho harmonioso no qual o bom relacionamento entre os indivíduos é valorizado? Brasileiros e chineses preferem preservar o relacionamento e manter o ambiente agradável. Este aspecto tem tudo a ver com o próximo item. 

• Comunicação indireta versus Comunicação direta – “Como eu me comunico?”
Nenhuma das duas culturas gosta de se expressar abertamente (“bater de frente”) ou tomar posição clara, do tipo “doa a quem doer”. Criticar, só se for de maneira sutil e por códigos. Manter a harmonia e resguardar a face é essencial para brasileiros e chineses. 

• Perfil Analítico versus Pragmático – “Como eu resolvo problemas?”
Chineses e brasileiros tendem a ser pragmáticos para tomar decisões e resolver problemas, diferentemente do que acontece naquelas culturas em que a análise do problema e da estratégia tomam mais energia e tempo. 

• Reação à Incerteza – “Como eu reajo a mudanças e risco?”
Com diferença pequena, as duas culturas têm boa tolerância a riscos e ao desconhecido. São abertas a novas maneiras de fazer e não percebem as rupturas na rotina como ameaças, tendendo a tratar mudanças como oportunidades de melhoria. 

• Perfil Racional versus Intuitivo – “Minhas decisões são lógicas ou intuitivas?”
As duas culturas são mais intuitivas, apoiam-se mais em instinto e feeling para tomar decisões. Isso não significa que ignorem fatos e dados sólidos, mas muitas vezes decidem com base em critérios que nem sempre parecem lógicos. 

• Multi-focused versus Single focused time – “Qual a minha atitude em relação ao uso do tempo?”
Nesta dimensão, as duas culturas podem ser consideradas multi-focused, ou seja, fazem várias coisas ao mesmo tempo. Mas os brasileiros são significativamente mais “multitarefas”. 

Nessas dimensões, que contam na hora de fazer negócio, as duas culturas têm muitas semelhanças. Mas há uma diferença fundamental, que pode estar na origem da ascensão da economia chinesa: enriquecer e ser o melhor são as grandes motivações dos chineses. Esta postura, no entender deles, nada tem de condenável. Todo chinês sabe: “Enriquecer é glorioso” – frase atribuída a Deng Xiao Ping, por ocasião da abertura de mercado da China e da criação das Zonas de Desenvolvimento Especiais, na década de 1970. No caso da China, isso está associado à educação, meritocracia, planejamento, pressa, trabalho duro e governo competente. 

*Hsieh Ling Wang é farmacêutica, com mestrado em bioquímica, e administradora. É sócia da W!N Education, Business Support. 

Produtividade II

Qualidade total

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O caminho da excelência operacional no processo produtivo passa por quatro pilares essenciais

*Por Ingo Pelikan 

Nos últimos 10 anos, montadoras e autopeças fizeram investimentos extremamente altos para modernizar os seus processos de fabricação no Brasil e, por consequência, os seus produtos. Muitos conceitos foram desenvolvidos e aplicados com foco na manufatura enxuta. Essa evolução é notória, embora, na comparação com o Exterior, algumas melhorias ainda sejam necessárias. 

Dentro do processo que contempla desde a matéria-prima até o produto da montadora, a manufatura enxuta pode ser entendida como caminho para a excelência operacional. Na busca pela qualidade total, a excelência operacional talvez seja o princípio. 

São quatro os pilares que proporcionam excelência operacional ao processo produtivo. Um deles são as tecnologias utilizadas no desenvolvimento de produtos. Precisam apresentar projetos inovadores, contribuir com o meio ambiente e a reciclagem, favorecer a mobilidade, ter cada vez mais conectividade e buscar alternativas para a eficiência energética e tudo isso interligado aos requisitos dos clientes e consumidores. 

O outro pilar envolve os serviços como vendas, pós-vendas e reparação — atendimento ao cliente, a assistência técnica e a reposição de produtos. Esses três pontos podem ser pensados de forma robusta para garantir agilidade e melhorar a satisfação do cliente. A imagem e a qualidade da marca estão diretamente ligadas a este pilar. Pesquisas, mídias sociais e marketing também fazem parte dele. 

O capital humano, que engloba tanto o engenheiro de projeto e o operário na linha de produção quanto o profissional de reparação no centro automotivo, é o terceiro pilar da excelência operacional. Pessoas necessitam de capacitação para gerar produtos com qualidade. E ser preparadas para a responsabilidade social, ambiental e código de ética. 

Por fim, há a manufatura, com processos que apresentem eficácia, robustez e produtividade. De nada adianta ter super equipamentos se a empresa não é produtiva com aqueles equipamentos. É preciso encontrar um ponto de equilíbrio. Automação, conceitos Lean e aspectos logísticos, entre outros, também são fundamentais. 

A manufatura enxuta ataca fortemente os desperdícios, que são associados ao custo da não qualidade. Os desperdícios devem ser analisados como indicador de desempenho porque essa avaliação permite perceber o quanto o processo é robusto e enxuto. 

Se todos os pilares forem trabalhados com qualidade, os objetivos estratégicos provavelmente podem ser alcançados com maior facilidade pela empresa. 

*Ingo Pelikan é presidente do Instituto da Qualidade Automotiva (IQA) 

Negócios da Indústria I

Compliance é o futuro

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Empresas em todo o mundo estão enfrentando uma revolução com relação às suas práticas de governança 

Por Cinthia Catlet 

Desde a década passada, Compliance passou a ser prerrogativa para a maioria das empresas nacionais e internacionais. Sinônimo de legitimidade e confiança, a implantação de processos de conformidade com padrões regulatórios agora é prioridade entre as empresas do mundo inteiro. Refutando o método paliativo, organizações brasileiras começam a observar a importância da proatividade neste quesito, principalmente, em razão das crises e escândalos reverberados pela mídia, envolvendo casos de fraude e corrupção nas maiores companhias do país. 

A mudança na mentalidade corporativa faz parte de um movimento mundial, impulsionado pela exposição da fragilidade das empresas e pela sua punição em razão da falta de supervisões adequadas. Isso também se deve à considerável expansão do escopo e da complexidade das atividades empresariais, aliadas a um ambiente regulatório complicado e em constante mudança. Estamos perto de completar três anos da promulgação da Lei Anticorrupção, o que elevou a importância e acelerou ainda mais a busca por programas e políticas de governança transparentes. 

E não se trata mais de questionar a necessidade ou não de colocar as atividades da empresa sob a orientação de um sistema de controles internos. A decisão de montar uma estrutura de Compliance não é vista somente como um diferencial, mas como obrigação para a administração que deseja garantir a longevidade do seu serviço ou produto, obter vantagem competitiva e oferecer credibilidade aos clientes e parceiros. 

Apesar da urgência em se adotar mecanismos eficientes e procedimentos de integridade, muitas empresas ainda têm dúvidas sobre quais definições e elementos devem constar nos seus programas de Compliance. Em razão da recente disseminação do conceito no Brasil, as diretrizes são inspiradas, em sua maioria, nas estratégias já consolidadas em outros países. Entretanto, o mercado interno também se baseia nos exemplos de subsidiárias de corporações estrangeiras estabelecidas no Brasil, além das instituições financeiras nacionais, que são submetidas à fiscalização de diversos órgãos reguladores e precisam de controles eficientes para continuar operando. 

Para haver a implantação de uma governança transparente, é preciso que a alta administração reconheça que a empresa precisa de um mecanismo de Compliance sólido. E é nessa hora que as dúvidas surgem. Existem diferenças e elementos que devem ser considerados na aplicação e na formulação de uma área de Compliance e suas diretrizes. E é papel dos consultores educar o empresariado brasileiro, que muitas vezes se sente confuso em relação ao assunto. É preciso explicar as ferramentas de controle e as inovações do setor, ao mesmo tempo em que se esclarece a importância destes sistemas numa linguagem de fácil compreensão, para que sejam aceitas e colocadas em prática. 

 

Fronteiras importantes 

Existem diferenças fundamentais na aplicação de controles em instituições financeiras e na indústria. Mas, para compreender isso, também é preciso desmitificar as divergências que existem entre departamentos e funções de Compliance e auditoria interna. Podemos afirmar de antemão que um não anula o outro, são complementares. Vamos iniciar a explicação primeiramente pelo o que é o Compliance e seu conceito. 

À medida que uma corporação começa a se expandir, naturalmente suas operações se tornam mais complexas, fazendo com que a alta administração tenha uma rotina conduzida por colaboradores em regiões diversas. Sem o devido controle, empresas cujos processos atravessam uma cadeia ampla, inevitavelmente têm seu espaço à disposição para a ação de pessoas má intencionadas. 

Em atividades regulamentadas como os bancos, por exemplo, o descumprimento das normas impostas pelos reguladores representa um grande risco e ameaça a continuidade de suas atividades. Neste sentido, a experiência nos mostra que a falta de supervisão fatalmente leva empregados e colaboradores a não reportar ou não seguir procedimentos — seja pela falta de conhecimento ou entendimento das instruções ou até por motivos de transgressão clara — como situações em que gestores são pressionados a atingir metas e resultados, mesmo que de maneira ilícita. 

 

Como instituir 

Com os controles enfraquecidos, a ocorrência de falhas operacionais fica evidente e a fragilidade dos processos facilita a ação de fraudadores. Para se proteger, a companhia precisa adotar mecanismos para estar em Compliance cotidianamente, tais como possuir regras internas pré-estabelecidas formalmente em um manual ou guia de instruções, em que se deve incluir e destacar o Código de Ética e Conduta da corporação. 

Utilizar processos automatizados é uma maneira de oficializar a prestação de serviços, por meio de contratos padronizados que permitam o preenchimento adequado das variáveis. Desta forma, quando as condições da prestação do serviço divergem, é gerada automaticamente uma notificação sobre a pendência que deverá ser esclarecida antes da formalização. Outra recomendação é implantar métodos de auto avaliação, permitindo a análise individual e da equipe com relação aos parâmetros estabelecidos, níveis de risco e eficiência, além do comprometimento com os controles. 

Dependendo da necessidade, designa-se um responsável pela supervisão geral do Compliance na companhia, a quem caberá a missão de espalhar as informações e diretrizes definidas pelos gestores da alta administração, além de comunicar mudanças nas leis e normas que possam colocar a organização em algum tipo de risco. Também será responsabilidade deste funcionário, ou da área, manter colaboradores e parceiros atualizados sobre o tema, para que este não caia no esquecimento e nem seja negligenciado com o passar do tempo. 

 

Auditoria necessária 

Resumidamente, essas são algumas das ferramentas que auxiliam o controle de processos, assegurando a conformidade dos procedimentos internos com os regulamentos externos e internos da empresa. No entanto, somente a implantação de tantas ferramentas de nada adianta se não forem fiscalizadas de forma independente. É neste momento que a auditoria entra em cena com o objetivo de avaliar se todos os mecanismos do Compliance estão sendo aplicados ou utilizados corretamente. 

Por meio de uma abordagem sistemática e disciplinada, a auditoria interna avalia a eficácia da gestão de risco, do controle e dos processos de governança. Os auditores possuem funções vitais e complementares que auxiliam as organizações a se adequarem às normas e regulamentos do seu setor. 

Quando, no passado, o Compliance era inexistente, os auditores internos cumpriam esse papel de certa forma, contribuindo para a instalação de controles. Porém, a verdadeira essência do auditor está na atividade de averiguação e consultoria independente e objetiva, com a finalidade de trazer valor e melhorar as operações de uma empresa. 

Podemos concluir que, enquanto o Compliance procura atuar na fase de definições ou estabelecimento de regras, procedimentos diários, treinamento individual e de áreas, além da conscientização de todas as partes interessadas, acionistas, colaboradores, fornecedores, funcionários, entre outros; a auditoria busca identificar oportunidades de aperfeiçoamento, tornar os controles mais eficientes, detectar indícios ou existência de irregularidades na organização, 

 

Instituições financeiras e indústria 

Agora podemos falar sobre algumas diferenças entre a aplicação de controles na indústria e em instituições financeiras. Para isso, precisamos olhar para o passado. Na década de 1990, com a abertura comercial, o Brasil buscava se alinhar ao mercado internacional em termos de competitividade, o que despertou a atenção de órgãos reguladores sobre a necessidade de se equilibrar as regras internas em relação às normas internacionais. 

Desde a Grande Depressão norte-americana, o sistema financeiro já procurava reforçar a normatização do mercado por meio de uma supervisão constante de suas práticas. Em 1975, por exemplo, foi estabelecido o Comitê de Supervisão Bancária da Basiléia, que até hoje funciona como um fórum mundial para discussão e cooperação no assunto, impondo regras rígidas e fiscalizações rigorosas para o setor. 

No entanto, fatos históricos e relevantes mundialmente, como o ataque de 11 de setembro e a sucessão de escândalos financeiros em Wall Street, despertaram a necessidade de regulamentações ainda mais assertivas e aplicáveis internacionalmente. Dessa forma, foi criada, em 2002, a Lei Sarbanes-Oxley. Também conhecida como SOX, ela visa à obrigatoriedade de mecanismos confiáveis nas empresas e regras a fim de mitigar riscos, ocorrências de fraudes ou corrupção nas organizações. 

Pressionadas pela legislação, além de acionistas, clientes e fornecedores, as instituições financeiras passaram rapidamente a fazer estruturações estratégicas, organizacionais e tecnológicas, para assegurar o aprimoramento do valor e da reputação corporativa. O Compliance então chegava num momento conturbado, em que as transformações estavam ocorrendo simultaneamente. 

 

Atualmente, além de ter de se adequar às agências reguladoras e leis internacionais, as instituições financeiras atuantes no Brasil também precisam se atentar às regras estabelecidas pelo Banco Central (Bacen) e outras normas, como o Código de Defesa do Consumidor (CDC), por exemplo. 

 

As empresas brasileiras em geral (indústria) que pretendem adotar programas de Compliance hoje contam com uma estrutura de incentivo estabelecida, que incluem a governança corporativa, o Índice Dow Jones, a Lei Sarbanes-Oxley, o Índice de Sustentabilidade Empresarial, o UK Bribery Act, o Foreign Corrupt Practices Act (FCPA), entre outras. 

Nesse sentido, a Lei Anticorrupção Empresarial do Brasil surge como mais uma bússola — somada aos demais modelos de estrutura já existentes — que deve servir como instrumento de direcionamento e estímulo a uma conduta empresarial ética e de combate à corrupção, com o intuito de reforçar a confiança dos investidores no âmbito nacional e internacional e trazer benefícios à sociedade brasileira. 

Com as recentes crises políticas e financeiras que afetam o Brasil e o mundo, novas exigências regulatórias globais e locais deverão ser introduzidas com a finalidade de contribuir com a sustentabilidade empresarial e a criação de valor no longo prazo. Programas de Compliance ganham ainda mais importância, pois continuarão a ser um mecanismo para avaliação e neutralização dos riscos já existentes, além de representar uma ferramenta para análise e entendimento das novas regulamentações que surgirão e precisarão ser acompanhadas para garantir às empresas a mitigação de novos riscos. 

*Cynthia Catlett é diretora executiva da FTI Consulting, empresa de consultoria empresarial global 

 

Investimento certo 

Mesmo diante de um cenário regulatório complexo, diversos estudos comprovam que companhias no mundo todo enxergam valor no Compliance. O verdadeiro desafio está na dificuldade em se justificar os custos destes controles. Apesar de, obviamente, os custos da não implantação destes mecanismos serem maiores. Basicamente, os gastos com uma política de Compliance podem ser divididos em três aspectos: custos de manutenção, de não conformidade e de governança. O primeiro se refere aos custos para executar e promover essa política, como gasto de pessoal, treinamento, comunicação interna e consultoria. Já no segundo, custos de não conformidade, podemos citar penalidades, multas e tributos, custos de remediação, perda da receita, interrupção dos negócios e perda da produtividade, impacto no capital, danos à reputação da empresa, de seus empregados e da marca, despesas com advogados, custos judiciais e valor/hora da alta administração. Por último, mas não menos importante, os gastos com governança se resumem à manutenção e às despesas da diretoria e dos comitês, custos legais e jurídicos, contratação de auditoria externa e relacionamento com investidores e comunicações. 

Entrevista

Leveza sustentável

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O presidente da SAE BRASIL fala sobre os caminhos da mobilidade no país e no mundo 

Por Inês Pereira 

 

Como uma lente grande angular, o olhar de Frank Sowade é abrangente. Sua experiência de 28 anos na indústria automotiva lhe conferiu recentemente a vice-presidência da SAE BRASIL no biênio 2013/2014 e a presidência em 2015/2016. Ao longo de sua trajetória profissional, Sowade vem atuando em áreas corporativas, na engenharia de manufatura e em operações, tanto em agregados — que engloba motores, transmissões, eixos e fundição — como em veículos. Durante cinco anos, na matriz da Volkswagen, foi responsável pela coordenação técnica junto às plantas na América do Sul. 

Capazes de trazer à luz temas fundamentais para apresentação e discussão por importantes representantes da indústria e da academia, a SAE BRASIL e Sowade garantem ao mercado informação, atualização tecnológica, conhecimento técnico e, sobretudo, massa crítica para análise e compreensão de problemas e desafios. “A SAE BRASIL sempre foi palco neutro de discussões abertas de cunho técnico, considerando a estratégia e a confidencialidade de cada uma das empresas representadas nas pessoas dos associados”. Nesta entrevista à revista O Mundo da Usinagem, Frank Sowade antecipa o futuro da indústria automotiva brasileira e internacional, fala sobre conjuntura, questões a serem resolvidas pela indústria nacional e a atuação da SAE BRASIL. 

 

OMU: Uma das grandes buscas da indústria automotiva e aeroespacial no mundo é a eficiência energética dos motores. O que esperar para o futuro em termos de novas tecnologias e materiais e combustíveis alternativos, como energia solar, elétrica? 

SOWADE: A SAE BRASIL iniciou recentemente mais uma Comissão Técnica voltada ao estudo dos materiais, assunto que também é tratado em outras comissões, como CarBody. A busca por materiais mais leves e mais resistentes e por processos que permitam a utilização desses materiais continua – o Hot Stamping é um dos exemplos. 

Com relação aos propulsores, não vejo vida muito longa para motores a combustão – não só pelo CO2 gerado, mas também pelos complexos processos de manufatura e baixa eficiência energética. Porém, eles deverão ainda passar por alguns ciclos de melhoria até serem substituídos completamente por propulsores elétricos, enquanto os esforços para a viabilização de veículos elétricos em maior volume se concentram no peso das baterias e sua vida útil, na autonomia/ tempo de carga e custo de aquisição. 

As vantagens dos elétricos são inúmeras. Além da condução silenciosa, do custo de utilização e da facilidade para condução autônoma, a emissão de CO2 ocorrerá apenas se a energia gerada para o carregamento das baterias emitir o CO2. E existem inúmeras opções para se evitar isso. 

A energia será gerada de formas cada vez mais limpas e a partir de fontes renováveis. A solar e a eólica já são realidade também no Brasil, país abençoado pelos inúmeros rios e por uma geografia que permite a construção e operação de usinas hidrelétricas, eólicas e fotoelétricas. 

 

OMU: Paralelamente, a necessidade e o desejo dos consumidores por mais segurança, conectividade e conforto também estão no radar dos centros de PD&I mundiais. Pode comentar? 

SOWADE: A condução de um veículo elétrico é mais suave e, ao mesmo tempo, tem respostas mais precisas e rápidas. Sim, a alocação de recursos e expertise no desenvolvimento de veículos elétricos e híbridos estão sendo feitas por empresas automotivas que entendem na eletrificação o futuro da mobilidade. Com foco na conectividade, no veículo autônomo e em novos conceitos de mobilidade como car sharing city car rental, novos players entram no mercado com modelos de negócios que vão além do desenvolvimento e produção de um veículo. 

 

OMU: Qual seu prognóstico sobre a (r)evolução que vem a partir da Indústria 4.0, considerando países como o Brasil que possuem um parque fabril ainda bem defasado e obsoleto, do ponto de vista dos fabricantes e dos usuários? 

SOWADE: A indústria 4.0 nada mais é do que a evolução natural da tecnologia para atender de forma racional e sustentável à mudança no comportamento e nos desejos da sociedade. Produzir para estocar faz parte do passado. Hoje, as empresas produzem o que já venderam e não na esperança de vender. “Gastar” mão de obra e energia para estocar parece pouco inteligente. Esse princípio não é novo, remete ao início da manufatura enxuta – o diferencial da nova revolução industrial é a facilidade de se fazer isso com o suporte de sistemas inteligentes e interligados. 

 

OMU: Qual é o papel do professor e da universidade e instituições diante das atuais demandas e tendências de mobilidade para a capacitação técnica nas escolas de Engenharia? 

SOWADE: Desafios sempre existiram e sempre existirão; diversos ciclos de evolução determinam uma era, e a esta última sequência de ciclos chamamos Era Industrial 4.0. Existe a necessidade de aproximação entre a universidade e a indústria. Os programas de estágio e trainees, mesmo em grandes empresas, ainda não cobrem a demanda que temos hoje e teremos ainda mais no futuro. “Um país se faz com homens e livros”, já dizia Monteiro Lobato. 

 

OMU: Pensando ainda nas novas gerações, pode comentar sobre a iniciativa Word in Motion, focada em incentivar estudantes do ensino fundamental e médio a gostarem mais de ciências e matemática? Quais os principais desafios e resultados até o momento? 

SOWADE: A ideia nasceu do desinteresse de alunos em procurar cursos técnicos e de nível superior relacionados à engenharia, eletrônica, mecatrônica e outros, interessando-se mais especificamente por temas mais da “moda” ou mais procurados pelo mercado. Criou-se, então, o programa para motivar estudantes, já na tenra idade, para o lado básico dos fenômenos mecânicos, elétricos, eletrônicos e do movimento. Assim nasceu na SAE International, nos Estados Unidos, o programa “World in Motion“ que visa trazer conhecimentos básicos dos fenômenos simples de forma intuitiva, como construir pequenos artefatos com um kit pré-desenhado, que sempre envolve algum princípio físico. São ministradas aulas simples (em número de 5 a 10) em que são destacados os fenômenos físicos e/ou elétricos envolvidos, criando assim interesse dos estudantes pela engenharia como um todo. São vários níveis de kits. É um programa muito educativo. 

Não existe ainda a aplicação do “World in Motion” no Brasil pela nossa entidade. Esperamos no futuro conseguir patrocinadores para viabilizar programas similares. Temos o objetivo de criar um programa desse tipo. Iniciamos tratativas com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo e colocamos o programa nos nossos planos futuros. 

 

OMU: Passado o momento de maior turbulência no país, o que a indústria precisa fazer no sentido de se adaptar às mudanças estruturais que devem ocorrer daqui em diante? 

SOWADE: A Indústria precisa definir a estratégia de transição para os objetivos que a sociedade espera. Postos de trabalho desaparecerão e novos serão criados, obviamente com uma exigência intelectual muito maior. 

Cada setor da indústria deve olhar para o que está sendo feito no mundo, adaptar e aprimorar este conteúdo para o Brasil. 

 

OMU: O Brasil, que em 2015 foi o oitavo maior fabricante de veículos no mundo, ocupa que espaço no cenário internacional atualmente? Esse ranking se deve a quê? 

SOWADE: Os motivos são inúmeros. Para citar apenas alguns: crise política, infraestrutura absolutamente inadequada a um futuro crescimento e o custo Brasil, que se faz presente na burocracia e na letargia de processos, tanto administrativos como operacionais. A competitividade para a presença no mercado global está muito comprometida. 

 

OMU: Como avalia essa primeira fase do Inovar- Auto? 

SOWADE: Avançamos no aumento da eficiência energética, de investimentos em P&D e na nacionalização de veículos, sistemas, componentes e peças. A instalação de novas plantas no país trouxe desequilíbrio na importação de componentes. Esse ponto deve ser incluído na construção de um novo modelo. Os próximos passos a partir do final do programa, em meados de 2017, estão em discussão entre a Anfavea e órgãos governamentais. E, a meu ver, outros aspectos deveriam ser levados em conta, principalmente ações que garantam a competitividade da indústria brasileira em âmbito mundial. Uma política de longo prazo traria mais confiança à indústria e a possibilidade de planejamento de longo prazo aumentaria a segurança de retorno sobre o investimento. 

 

OMU: E no setor aeroespacial, quais são os pontos mais importantes que auxiliariam a impulsionar ainda mais o setor, global e localmente? 

SOWADE: No setor aeroespacial, e particularmente no aeronáutico, o Brasil faz parte de um grupo seleto de países que detêm o domínio do ciclo completo da indústria – da concepção do projeto, construção, teste e validação, à certificação e, finalmente, produção seriada, de aeronaves sofisticadas. Ocupamos, hoje, uma posição de destaque como produtor de jatos comerciais, sendo o terceiro maior do mundo. 

Manter-se nessa posição exige enormes investimentos em P&D, com foco em materiais, processos e tecnologias emergentes, abrangendo tanto o produto como processos de desenvolvimento e manufatura. Nos EUA e principalmente na Europa, foram criadas políticas públicas de apoio à indústria, cujo desenvolvimento de plataformas tecnológicas do futuro constitui uma das mais notáveis. Com generosa participação da União Europeia, uma cadeia liderada por uma grande fabricante de aeronaves da Europa, fornecedores, institutos de pesquisa e universidades europeias, dedica-se a pesquisar e desenvolver o avião da década de 2050. 

Esforço similar inspirado no exemplo europeu, adaptado às peculiaridades do cenário brasileiro, constitui uma das condições necessárias para a preservação da competitividade e perpetuação da indústria aeronáutica brasileira. 

 

OMU: Pode resumir o trabalho da SAE BRASIL e a importância dos congressos para a discussão de desafios, debates e difusão de conhecimento? 

SOWADE: O Congresso e Mostra Internacionais SAE BRASIL de Tecnologia da Mobilidade, que completa em 2016 seus 25 anos de realização, é o maior evento da mobilidade da América do Sul, e reúne a cada ano os ícones da indústria não só do Brasil, mas também especialistas internacionais em seus diversos painéis e fóruns. 

Além do Congresso, carro-chefe da programação de eventos técnicos da SAE BRASIL, realizamos simpósios organizados por 10 Seções Regionais estrategicamente localizadas em polos tecnológicos do Nordeste ao Sul do país. 

Não menos importantes, nossos programas de Educação Continuada focam o desenvolvimento permanente de engenheiros em toda a sua carreira, como continuidade ao conteúdo universitário. Os cursos podem ser regulares ou customizados para a demanda das empresas, e ministrados in company

Não poderia deixar de destacar o Programas Estudantis da SAE, com competições de altíssimo nível técnico, teórico e prático de âmbito internacional nas modalidades AeroDesign (aviões radio controlados), Demoiselle (aviões movidos a elástico, para estudantes do ensino médio), Baja (veículos off road) e Fórmula (veículos com motores de combustão interna e elétricos). A partir de 2017, teremos também o Formula Drone SAE (aeronaves com asas rotativas). 

Esses programas objetivam o desenvolvimento das habilidades técnicas dos estudantes de engenharia, e também seu espírito empreendedor e o trabalho em equipe. Anualmente, as melhores equipes das competições brasileiras de Baja SAE, Formula SAE e SAE AeroDesign competem na SAE International, nos Estados Unidos, e frequentemente trazem troféus na bagagem de retorno, motivo de muito orgulho para nós. 

 

OMU: Como são feitas parcerias com universidades e empresas no sentido de viabilizar concursos, congressos etc.? 

SOWADE: Como mencionado acima, temos programas próprios tais como SAE AeroDesign, Baja SAE, Fórmula SAE, SAE Demoiselle e, mais recentemente, o Fórmula Drone SAE, nos quais são criadas as bases técnicas regulamentadas e os grupos de alunos das universidades se inscrevem para concorrer nos respectivos programas. Esses programas envolvem desde a concepção do projeto, passando pelo design, escolha de materiais, construção de protótipos e testes, buscando atender aos princípios definidos nas normas, tais como funcionalidade, peso, transporte de carga, segurança, desempenho, etc. 

As universidades apoiam os programas por meio do estímulo e orientação às equipes de seus alunos. No âmbito nacional de nossos programas estudantis, procuramos permanentemente desenvolver a aproximação assídua com universidades de todo o país, de forma aberta e participativa. 

No passado, criamos um revolucionário mestrado profissionalizante stricto sensu em que, com apoio dos governos federal e estadual, operamos por aproximadamente três anos em parceria com a Unicamp e o ITA, trabalhando como elo entre a Indústria e a Universidade na criação de ementas de grande interesse. Infelizmente o alto custo para as empresas interessadas nos obrigaram a suspender o programa. 

 

Por dentro da SAE 

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A SAE BRASIL comemora 25 anos de existência. Atualmente, tem seis mil associados e mais de mil voluntários. Com sede em São Paulo, marca presença em sete estados brasileiros, por meio de 10 seções regionais. A associação promove anualmente mais de 100 eventos, entre simpósios, fóruns, colóquios, palestras e congresso, que contam com a presença de 18 mil participantes. Em 2014, 700 engenheiros receberam treinamentos e especializações. No mundo, a SAE International congrega 138 mil engenheiros voltados para os mercados aeroespacial, comerciais, industriais e automobilísticos. Em 1990, o braço social da SAE International, a SAE Foundation, desenvolveu o A World in Motion — um projeto que tem por objetivo estimular nas crianças a curiosidade e o gosto por Ciências e Matemática. Voltado para a quarta, quinta e sexta séries do Ensino Fundamental, o projeto ainda não existe no Brasil. Para saber sobre a SAE BRASIL, acesse http://portal.saebrasil.org.br 

Educação e Tecnologia

Chave virtual

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Startup desenvolve aplicativo que confere ao smartphone a capacidade de abrir portas à distância 

Fontes: Agência Fapesp e Magikey 

Já pensou em como seria seguro e confortável definir quem pode abrir a porta da sua casa ou de seu escritório utilizando um simples smartphone? Já pensou em como seria poder autorizar a entrada de clientes, funcionários, visitantes entre outros públicos, mesmo à distância, apenas tendo em mãos um aplicativo? Remotamente, você saberia quem está entrando por catracas, cancelas, portões e portas abertos sem a presença de recepcionista. Graças a um conjunto de dispositivos e softwares, que ganhou o nome de Magikey, o que, a primeira vista, parece ficção, já é realidade. 

Desenvolvido pela startup paulista Addvance Soluções em Informática, o aplicativo permite que o anfitrião controle o acesso autônomo de pessoas a residências ou escritórios, remotamente, de qualquer parte do mundo, e defina o período de autorização. É possível criar permissões individuais e de grupos, gerenciar acesso a ambientes específicos, entre outras possibilidades. Com apenas um clique, uma nova chave pode ser criada definindo restrições de acesso por semanas, dias e horas. 

A ideia surgiu em conversas informais entre os engenheiros de controle e automação Raul Mariano Cardoso, Guilherme Andrigueti e Felipe Pirotta ainda durante a graduação na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Certos de que queriam ser empreendedores, em 2012 formalizaram a abertura da Addvance. Inicialmente dedicados a um projeto que os ajudou a entender o que era fazer negócio, levar um produto ao mercado, vender e negociar, os sócios contaram com o apoio do Programa Fapesp Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) para desenvolver o Magikey e testar sua viabilidade técnica e comercial. 

Segundo o cofundador Raul Mariano Cardoso, a Internet das Coisas — conceito no qual se baseia o desenvolvimento do Magikey — é uma área de pesquisa muito promissora e aplicá-la como mecanismo de identificação pessoal representa uma quebra de paradigma. 

O Magikey se diferencia dos demais substitutos de chaves existentes no mercado nacional (controles remotos, cartões inteligentes e códigos de barra) porque ele proporciona a interação de pessoas com coisas (portas/cancelas/catracas) usando o smartphone e possibilita a comunicação entre usuários. “O sistema tem três componentes principais: os smartphones em que são instalados o Magikey, os dispositivos nas portas e um software na nuvem responsável pela inteligência e dados do sistema. O aplicativo se comunica, então, com a porta e faz a validação da identidade das pessoas”, explica Cardoso. Segundo ele, no exterior há tecnologias similares com estágio de desenvolvimento parecido ao do Magikey. 

Os sócios do Magikey: Raul Mariano Cardoso, Guilherme Andrigueti e Felipe Pirotta Os sócios do Magikey: Raul Mariano Cardoso, Guilherme Andrigueti e Felipe Pirotta

 

Aplicações
A chave virtual pode ser utilizada em situações diversas. Algumas, como as listadas abaixo, trazem benefícios interessantes que incluem segurança, aumento de produtividade e redução de custos.

• Escritórios e coworkings
Controle de entrada e saída do espaço, gestão de horas de uso, controle de salas de reunião e facilidade na gestão dos visitantes, inclusive em eventos.

• Clínicas / Healthcare
Recepcionista virtual e orientação aos pacientes, rastreamento dos acessos e simplificação de todo processo de identificação interno.

• Condomínios
Recepção facilitada de visitantes, cadastro seguro de moradores e prestadores de serviço, sistema de acompanhamento de acesso em tempo real.

• Hotelaria e aluguel de temporada
Sistema de recepção com envio de chaves em um clique, orientação no aplicativo, check-in check-out automático.


Primeiras experiências 

Atualmente o Magikey é utilizado por nove “adotantes iniciais” de Campinas, São Paulo e São José dos Campos, entre eles três coworkings, cinco escritórios e uma clínica médica. O desenvolvimento do Magikey é guiado pela necessidade desses clientes e pelo plano de pesquisa proposto à Fapesp. “Essas parcerias nos ajudam a testar o produto, a acompanhar métricas de utilização, além de entender o mercado”, explica. 

A estimativa da Addvance é instalar o Magikey em 60 novos clientes até fevereiro de 2017. Desde outubro, a empresa iniciou um processo de pre-order (vender para entregar futuramente), com a entrega dos dispositivos prevista para o início de 2017. 

Para provar aos clientes o valor desse serviço, a empresa está montando cases bem elaborados, com métricas objetivas, que ajudarão a demonstrar suas vantagens. “Temos visto que, quando as pessoas experimentam e se acostumam, percebem que a dinâmica é bem mais natural e simples”, conta Cardoso. 

O desafio maior, segundo ele, é a construção de um negócio inovador, que trabalha com tecnologias disruptivas (que quebram antigos paradigmas), estando no Brasil, em um ambiente totalmente desfavorável. “A Fapesp foi o agente que esteve na contramão do ambiente desfavorável, oferecendo-nos grande suporte financeiro e de formação, embora ainda com processos um pouco demorados e burocráticos”, analisa. 

Cardoso diz que, apesar de já terem pensado em desistir dezenas de vezes, o desafio e o aprendizado são os seus maiores motivadores: “Poder gerar uma solução brasileira nesse segmento nos deu um sentimento de ‘fazer a diferença’ para o Brasil”. Ele informa que também pretendem ampliar a utilização dos recursos de smartphones no oferecimento de serviços. 

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A chave inicial 

A Addvance não desmerece o sucesso das chaves e fechaduras convencionais, tecnologia com mais de 4 mil anos de idade que em 2016 ainda é a mais utilizada para controlar acesso a ambientes. O sistema “chave e fechadura” foi utilizado por egípcios antigos e patenteado por Linus Yale em 1841. Mesmo a versão “moderna” das chaves tem mais de 150 anos no mercado. Desde então, surgiram outras tecnologias de acesso, como o controle remoto de portões, em 1970, que usa radiofrequência, e os códigos de barra. Para a Addvance, as chaves virtuais são o próximo passo. A empresa defende que as pessoas não precisam mais de chaves, elas querem selecionar de forma segura quem pode entrar nos ambientes restritos. 

 

Como funciona 

Para que o smartphone tenha a capacidade de abrir e fechar, a startup Addvance desenvolveu um aplicativo (disponível para Android e iOS) que utiliza duas tecnologias conhecidas: Near Field Communication (NFC), tecnologia que permite a troca de informações sem fio e de forma segura entre dispositivos compatíveis que estejam próximos um do outro. E o Bluetooth, que opera por ondas de rádio. A tecnologia permite que se faça a validação entre o celular e um tablet. Isso possibilita, por exemplo, que um segurança possa avaliar a credencial em questão ao entrar em um evento. Por meio de notificações de push, enviadas do aplicativo para o celular, o anfitrião pode ainda se comunicar diretamente com o visitante, solicitando, por exemplo, que aguarde ou se dirija a outro ambiente. O sistema desenvolvido utiliza basicamente com três elementos: os smartphones , os dispositivos nas portas e um software que contem um banco de dados e fica na nuvem. Os dispositivos embarcados se conectam a esse aplicativo centralizado na nuvem e a interface dos usuários com o sistema é realizada por meio de dispositivos inteligentes. 

Soluções de Usinagem II

A melhor usinagem

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Gastar tempo com análise dos métodos de usinarem resulta em ganhos no final do processo

*Por Francisco Cavichiolli | Ilustrações: Sandvik Coromant (Suécia) 

Pode parecer básico demais pensar em operações que fazem parte do dia a dia da indústria. Entretanto, é o conhecimento detalhado e a escolha do método de usinagem que possibilitarão otimizar a aplicação das ferramentas de fresamento e técnicas para a execução de um processo mais mais eficiente e produtivo. 

 

O que significa na prática? 

O início de tudo está no sentido de corte e no correto posicionamento da fresa. Ou seja, para escolher o melhor método de fresamento, deve-se avaliar, antes, qual o melhor sentido de corte a ser adotado e como posicionar a fresa. 

 

Sentidos de corte 

Na figura 1, temos o sentido de corte concordante, que recebe esse nome pelo fato de a fresa atacar a peça no mesmo sentido de avanço da peça a ser usinada. 

O corte concordante tem como característica principal a geração de cavacos espessos no início do corte, ou entrada da ferramenta, e finos na saída do corte. 

Esse é o método mais recomendado para operações de fresamento, pois gera forças de corte favoráveis à aresta da ferramenta resultando em vida útil longa. 

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Na figura 2, temos o corte discordante, que recebe esse nome não somente por ser o oposto ao concordante, mas pelo fato de a fresa atacar a peça no sentido contrário ao avanço da mesa. Esse método é o menos indicado por gerar uma condição de atrito na entrada da aresta em corte, e que está relacionada a uma geração de calor desnecessária, sem que tenhamos uma condição de corte efetiva. Outra característica desse método é a formação de cavacos espessos na saída do corte, o que provoca a ruptura do material de forma repentina. 

Esse é um dos principais fatores que causam vibrações e lascamentos de bordas em peças de materiais quebradiços, como os ferros fundidos, por exemplo. 

 

“Como benefícios mais expressivos, obtemos peças sem variações  dimensionais e vida útil longa da ferramenta.” 

 

O corte discordante, por outro lado, gera menor deflexão da ferramenta e pode ser usado para resolver problemas de imprecisão de perpendicularismo de paredes, para citar outro exemplo. O corte discordante também é indicado para eliminar folgas mecânicas que podem haver no sistema de fuso da mesa da máquina. 

 

Posicionamento da fresa 

Quanto ao posicionamento da fresa podemos dividir em basicamente duas condições. A condição de largura fresada grande ou pequena. 

Considera-se largura fresada (AE) grande quando a área de contato da fresa com a peça é igual ou superior a 50% do diâmetro da fresa (DC), ou seja, AE ≥ 50% DC. 

Essa condição é usada quando temos muita remoção de material a ser feita, ou peças de superfícies grandes. 

Para obtermos uma condição de corte otimizada, o ideal é que tenhamos entre 70% e 80% do diâmetro da fresa em contato. 

Com esse posicionamento, aliado ao corte concordante, proporcionamos uma entrada em corte suave, com forças de corte favoráveis até a saída da aresta do material. A geração de calor é concentrada nos cavacos, que são descartados, deixando a peça e a ferramenta “frias”. 

Como benefícios mais expressivos, obtemos peças sem variações dimensionais e vida útil longa da ferramenta. 

Consideramos largura fresada (AE) pequena quando a área de contato da fresa com a peça é inferior a 50% do diâmetro da fresa (DC), ou seja, AE < 50% DC. 

Em operações de contorno, acabamento de paredes ou detalhes, que nos obrigam a trabalhar com largura fresada pequena, p rincipalmente abaixo de 25% do diâmetro da fresa (AE ≤ 25% DC), ocorre uma situação onde os cavacos gerados não são espessos o suficiente para gerar forças de corte, nem calor suficiente na aresta de corte. Com isso, podemos lançar mão de um recurso que é a compensação do avanço, onde recalculamos o avanço aplicado no deslocamento da ferramenta de forma a gerarmos uma espessura de cavacos mais adequada, com maior geração de calor na aresta de corte. 

Em outras palavras, podemos e devemos aumentar o avanço sob essa condição. Os benefícios mais visíveis são o tempo de ciclo reduzido, menor tendência às vibrações e melhor vida útil da ferramenta. 

 

“Estar atento aos mínimos detalhes do processo de fabricação, desde o início, garante eficiência ao final e resultados dentro do desejado.” 

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Desafios 

O assunto abordado pode parecer simples, mas é aí que está o desafio. Estar atento aos mínimos detalhes do processo de fabricação, desde o início, garante eficiência ao final do processo e resultados dentro do desejado. 

 

Nossas dicas 

Procure sempre extrair o máximo de suas ferramentas de corte e equipamentos, logicamente dentro dos parâmetros de aplicação e segurança recomendados pelos fabricantes. Alie a essa atitude, o cuidado com a análise básica do que você quer fazer, do que espera obter, do que tem em mãos (material, ferramentas, fixação, máquina etc.) e os fundamentos da usinagem. É uma receita que diminui a margem de erros e as surpresas desagradáveis no decorrer do processo e tem grandes chances de dar certo! 

Artigo originalmente publicado pela revista Ferramental, edição 67, e adapatado para a OMU. 

Francisco Cavichiolli é Especialista de fresamento, fresamento de engrenagens e sistemas de fixação da Sandvik Coromant do Brasil Francisco Cavichiolli é Especialista de fresamento, fresamento de engrenagens e sistemas de fixação da Sandvik Coromant do Brasil

Soluções de Usinagem

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Um faceamento bem-sucedido começa com a escolha certa da ferramenta 

Por equipe técnica da Sandvik Coromant EUA. Traduzido e editado por Vera Natale, editora da revista OMU, e Francisco Cavichiolli, especialista em fresamento, da Sandvik Coromant | Ilustrações: Sandvik Coromant (Suécia) 

O som dos cavacos batendo na carcaça da máquina, o baixo zumbido do metal que está sendo suavemente cortado, dando lugar à uma peça reluzente. Nada se compara ao som de uma operação de faceamento pesado bem-sucedida. Uma das operações de usinagem mais comumente realizadas, o faceamento requer um set up rígido, velocidades e avanços corretos para o material a ser usinado, e uma abordagem de programação que respeite a geometria da peça e as condições de usinagem. E talvez o principal – o faceamento precisa de uma boa ferramenta de corte. 

Qualquer um que já precisou usar uma fresa para usinar um bloco de aço-carbono certamente aprecia o valor da alta tecnologia, por exemplo, fresas de facear intercambiáveis disponíveis hoje no mercado. Todos os anos, os fabricantes de ferramentas desenvolvem e lançam produtos mais rápidos e mais eficientes que agregam mais valor ao processo e ainda otimizam os custos. Para saber quais funcionam melhor para materiais difíceis de usinar e perfis de peças complexos, é importante compreender as diferenças entre essas ferramentas e como melhor aplicá-las. A seguir, sugerimos algumas dicas que podem tornar o seu caminho mais tranquilo e produtivo. 

 

DICA 1: Largura da ferramenta 

Usinar o topo de uma peça para obter uma superfície lisa e plana não é algo difícil. Muitos pegam uma fresa de topo qualquer, fazem um zigue-zague na peça e pronto. No entanto, isso raramente é uma boa prática de usinagem. A pressão da ferramenta nesse caso é relativamente alta, e as forças de corte são perpendiculares ao fuso, sendo que ambas devem ser evitadas. E a menos que você esteja realizando uma operação de faceamento em uma peça de trabalho muito estreita – o aro de uma tampa de válvula, ou a borda de uma carcaça eletrônica, por exemplo – muito provavelmente, a fresa de topo não atenderá de maneira adequada, por não ser larga o suficiente. 

Exemplo de percurso que matém o engajamento constante da fresa Exemplo de percurso que matém o engajamento constante da fresa

 

Para evitar uma situação como essa que acabamos de descrever, deve-se considerar a primeira regra de seleção de fresa de facear que é: sempre que possível, escolha uma ferramenta no mínimo tão larga quanto a peça e, preferencialmente, uma que seja 20 a 50% mais larga. Em seguida, use o corte concordante para produzir uma formação de cavaco de espesso a fino; evite choques da ferramenta na entrada da peça, utilizando a entrada por rolagem; e mantenha, continuamente, 70% da largura da ferramenta engajada em corte, desde que a potência disponível permita. Sobretudo, o ideal é não deixar que a largura fresada caia para abaixo de 50% do diâmetro da fresa, pois esta é a condição de entrada mais severa para pastilhas de metal duro e resultará em desgaste prematuro da ferramenta e um processo inconsistente. 

 

DICA 2: Alto cisalhamento 

A potência é outro ponto importante. A utilização de uma fresa de facear de 160 mm de diâmetro para usinagem de aços inoxidáveis ou ferros fundidos requer um torque elevado do fuso, a menos que seja encontrada uma maneira de reduzir as forças de corte, ou seja, restringindo a velocidade de avanço ou a profundidade de corte. 

Detalhe da fresa CoroMill® 245 com pastilha positiva de face única – alto grau de cisalhamento e baixas forças de corte Detalhe da fresa CoroMill® 245 com pastilha positiva de face única – alto grau de cisalhamento e baixas forças de corte

 

Há fresas de facear de alto cisalhamento no mercado que diminuem muito a pressão da ferramenta e o calor resultante. Essas ferramentas empregam, tipicamente, pastilhas positivas de face única que geram uma ação de corte muito positiva, como a CoroMill® 245, ideal para cortes de semiacabamento e acabamento em uma ampla gama de materiais. E usá-las com um ângulo de ataque de 45o, ou com pastilhas redondas, ajudará a evitar desgaste por entalhe na profundidade de corte, um problema comum em ligas à base de níquel e alto teor de cromo, tais como titânio e Inconel. 

 

DICA 3: Pastilhas dupla face 

Naturalmente, o problema com pastilhas de face única é que há somente um lado. Isso as torna mais caras, se pensamos no custo por aresta, e menos ideais para aplicações de desbaste, devido ao seu maior custo e menor resistência. Por outro lado, as pastilhas dupla face possuem um ângulo de saída tradicionalmente negativo que gera forças de corte mais elevadas e por essa razão, têm sido, há muito tempo, adequadas somente para desbaste pesado em ferros fundidos e outros materiais de cavacos curtos. 

Fresa de facear CoroMill® 745 – corte extremamente positivo em um conceito negativo multiarestas Fresa de facear CoroMill® 745 – corte extremamente positivo em um conceito negativo multiarestas

 

Devido a intensos trabalhos de P&D, vários fabricantes de ferramentas de corte tomaram o alto potencial de corte de pastilhas de face única e o duplicaram em ambas as faces de uma pastilha dupla face, posicionada negativamente, o que reduziu o custo por aresta para quase a metade. Ao mesmo tempo, algumas mudanças inteligentes no formato da pastilha aumentaram drasticamente o número de arestas de corte efetivas, ao mesmo tempo em que tornaram a pastilha mais robusta. Um exemplo desses desenvolvimentos é a fresa de facear CoroMill® 745 com 14 arestas por pastilha em formato heptagonal – sete indexações por lado – capaz de reduzir significativamente os custos com ferramentas, enquanto mantém uma pastilha com saída positiva e de corte livre. 

 

DICA 4: Boas vibrações 

Vibrações é outro tipo de problema comum ao realizar cortes pesados com uma fresa de facear. A máquina-ferramenta trepida e vibra, e as ferramentas de corte muitas vezes quebram e lascam, o que impacta a qualidade final da peça. A solução convencional é verificar o fuso e avanço e fazer pequenos ajustes até que condições de corte estáveis sejam alcançadas. Esses ajustes no processo podem muitas vezes ser traduzidos de volta para o programa de peça, mas às vezes não, resultando em processos imprevisíveis e menos robustos. Porém, há soluções no mercado que proporcionam ferramentas com menor custo, incluindo fresas de facear que precisam de menos potência para operar e que evitam esses problemas. Por meio do espaçamento irregular e do passo angular das pastilhas no corpo da ferramenta, as chamadas ferramentas de corte de passo diferencial interrompem as frequências naturais que causam vibração e trepidação. Ferramentas como a CoroMill® 745 de passo MD representam o melhor dos mundos em se tratando de fresas de facear, devido à eliminação das vibrações, possibilidade de cortes livres e ainda a capacidade de suportar as cargas pesadas de cavacos. 

Fresa de facear com passo diferencial MD Fresa de facear com passo diferencial MD

 

DICA 5: Refrigeração 

Na maioria das condições de usinagem, um fornecimento generoso de fluido de corte ajuda a eliminar os cavavos da zona de corte, reduzir o calor e lubrificar a ferramenta de corte. E não existe uma melhor maneira de fazer isso senão com a passagem do fluido através da ferramenta e direcionada para a zona de corte. Muitos fabricantes de máquinas-ferramentas, agora, oferecem possibilidade de refrigeração interna combinada com bomba de refrigeração de alta pressão com até 1000 psi ou mais, capaz de melhorar a produtividade em praticamente qualquer material. 

A única exceção é quando se usam ferramentas de corte de cerâmica ou em operações de fresamento duro, devido ao choque térmico que acaba se tornando “um assassino” da pastilha nessas condições extremas. Nesses casos, a substituição do fluido de corte por ar comprimido é uma maneira excelente e muitas vezes necessária para remover os cavacos da área de usinarem. 

Fresa com sistema de refrigeração interna Fresa com sistema de refrigeração interna

 

Para acabar 

Tudo o que fazemos na usinagem é para obter uma peça dentro das tolerâncias e qualidades desejadas e, quando necessário, com alto grau de acabamento. 

Múltiplas camadas de cobertura nas pastilhas de metal duro comprometem a agudeza da aresta, porém são resistentes o suficiente para usinar a maioria dos materiais. As pastilhas Wiper são, nesse caso, uma excelente maneira de obter acabamentos espelhados nos cortes de acabamento. À medida que o arco de contato da fresa de facear diminui, aumente as taxas de avanço proporcionalmente (mantendo as-sim a espessura de cavacos adequada). Sempre use pastilhas com raios de ponta menores para  reduzir a pressão de corte em geometrias de peças muito finas ou delicadas. Nesses casos, mantenha também pelo menos dois dentes envolvidos em corte e reduza a taxa de avanço ao entrar no corte. 

Existem dezenas, senão centenas de dicas e técnicas para melhorar a vida útil da ferramenta e a produtividade no faceamento. Essas são apenas algumas que esperamos tornar seu dia a dia mais fácil. 

O MUNDO DA USINAGEM é uma publicação da Sandvik Coromant do Brasil
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