Educação e Tecnologia

Letra também é ferramenta

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Projeto do SENAI inclui escrita à mão e leitura nas aulas dos cursos técnicos 

Por Inês Pereira

À primeira vista, o que teria o chão de fábrica a ver com livros, papel e caneta? A resposta é da professora Stella de Mello Silva, que foi responsável pela disciplina de Comunicação Oral e Escrita (COE), na Escola e Faculdade de Tecnologia SENAI “Roberto Mange”. Stella criou o projeto “Na contra (à mão) da Web” justamente para trazer à luz essa reflexão. Uma ideia tão simples quanto genial: estimular nos alunos dos cursos técnicos o prazer pela leitura e escrita manuscrita. “Sentia uma inquietude sempre que ouvia dos meus alunos dos cursos técnicos — na avaliação diagnóstica, realizada no começo de cada semestre –— que eles não viam utilidade na disciplina de COE, porque Português não combinava com Fabricação Mecânica. Então, me desafiei a pensar num caminho que provasse a relevância da COMUNICAÇÃO para esse curso e não, necessariamente, o PORTUGUÊS-GRAMÁTICA”, conta a professora.

Desafio e tanto, considerando-se que a maioria, para não dizer todos os aprendizes, pertence à geração da Idade Mídia, ou dos chamados Nativos Digitais, forjada na internet. “A Idade Mídia não é algo para se aceitar ou não. Ela está aí, posta, dita, acontecendo. Ela é avassaladora e inquestionável. Para a formação desses alunos, essa era contribui com a velocidade, com o acesso democrático e global da informação. E isso tudo é muita vantagem em relação à geração da década de 1980, que tinha que ir à biblioteca municipal para ler a enciclopédia Barsa. Entretanto, pode ser que estejamos formando, concomitantemente a esse cenário, alunos de leitura superficial, leitores de links, escritores de posts“, avalia a professora.

“Achei interessante apresentar a eles outra forma de comunicação: a carta pessoal manuscrita. Acredito que com ela imprimi- mos uma pessoalidade diferente (não necessariamente melhor!) à conversa. Ler a letra do outro é ler o outro. Há história nisso. Muita subjetividade. E para uma geração que vive na correria, respondendo mensagens aqui e ali, sem muito tempo pra refletir sobre si e sobre o que escreveu, acreditei ser interessante um pro- jeto que aguçasse esse aspecto lúdico da escrita”, acrescenta.

Por outro lado, Leandro Recchia, coordenador pedagógico da unidade de Campinas, destaca que o trabalho acadêmico na Escola e Faculdade de Tecnologia SENAI “Roberto Mange” é prioritariamente voltado às tecnologias, às redes sociais, ao mundo on-line. A própria professora Stella já liderou projetos relacionados ao Instagram e ao Facebook, aos blogs, à foto-narrativas, a jornais impressos etc. “Mas referente a esse projeto específico, os ganhos, para estes jovens, podem ser observados nos testemunhos de nossos alunos: o fomento do hábito da leitura; tempo para a organização das ideias, visto que a internet tem pressa – o que contrapõe com o ato da escrita manuscrita pensada, passada a limpo”, afirma. (veja box “A opinião dos alunos”)

A Escola e Faculdade de Tecnologia SENAI “Roberto Mange”, até então, não havia vivenciado alguma experiência nesse sentido. Por conta de conceitos como Indústria 4.0, Inovação, Tecnologia de ponta, observa o coordenador, processos de escrita manuscrita perderam um pouco de terreno. “A despeito disso, o projeto contribui – pedagogicamente falando – para a melhoria da própria escrita on-line. Os alunos, agora, refletem mais antes de responder imediatamente a um post na rede. Elaboram e reelaboram seus textos com maior critério; encaram o processo de comunicação com maior seriedade e propriedade”, diz.

Para Recchia, o “Na Contra (à mão) da Web” trouxe a compreensão não só da relevância indiscutível da linguagem, como também o exercício da práxis social da disciplina. “Eles viram utilidade no do- mínio da comunicação – na interação com o outro, na importância de organizar as ideias, no assimilar informações novas e filtrá-las”.

Recchia: Leitura faz do aluno um profissional diferenciado Recchia: Leitura faz do aluno um profissional diferenciado

 

A proposta do projeto 

A missão dos alunos era simples: frequentar, durante seis meses, a biblioteca, pesquisar e ler revistas especializadas — nas áreas de metal-mecânica, fabricação mecânica e segurança no trabalho — se identificar com alguma das reportagens/artigos e estabelecer contato com o autor via carta convencional.

Stella lembra que ao passar pela biblioteca da escola, observava suas estantes tão bem organizadas e atualizadas para os alunos, e se perguntava se havia interesse por este material tão rico e adequado às demandas da área da Fabricação. “Foi então que os sondei sobre o uso das revistas especializadas e minha surpresa foi constatar, pelo depoimento deles, que a utilização beirava o zero. Sugeri, assim, que iniciassem o projeto com a revista OMU e outras duas que tratavam de segurança e mercado de trabalho”, descreve.

“Gostaria de mostrar que, em um tempo remoto, o tempo era valorizado. Precisamos de tempo para lidar com o outro e o mais paradoxal dessa Idade Mídia é que ofereceram a eles instrumentos para ‘ganhar tempo’; mas parece que só o perdem. Nesse contexto, o papel do educador é mostrar que é possível a melhor administração do tempo, seja para ler, escrever ou falar. É preciso apre- sentar o que acontecia em outra época, contrapondo os prós e os contras, oferecendo TEMPO de qualidade para que eles pensem, reflitam, decidam, escolham”, enfatiza a professora.

Sua escolha para integrar o “Na contra (à mão) da Web” foi a turma do curso de Fabricação Mecânica. Segundo ela, os alunos chegam às primeiras aulas querendo conhecer e vivenciar o chão de fábrica. Dificilmente enxergam a comunicação como um dos instrumentos para o sucesso nesse ambiente. Eles querem pôr a mão na massa, usinar peças, mexer no torno. “A princípio, houve resistência. Mas depois da primeira resposta recebida, a sala se inflamou”, conta.

Ao longo dos seis meses, até concluir o projeto e seu trabalho na instituição, Stella monitorou se houve aumento de procura pelos periódicos na biblioteca da escola; se as cartas escritas eram claras e tratavam de temas mercadológicos; se o olhar desses alunos para si mesmos – enquanto cidadãos, discentes e candidatos ao mer- cado de trabalho – fortalecia-se. “Notou-se que muitos dos alunos apresentavam dificuldade em concentrar-se e organizar ideias de maneira lógica. Portanto, é bem provável que, por conta do sucesso do “Na contra (à mão) da Web”, este tenha uma nova edição no próximo ano”, comenta o coordenador pedagógico.

Ele ressalta que o profissional da indústria – assim como qualquer outro, em qualquer área – é um indivíduo, um cidadão social: “Não basta chegar à indústria e querer ‘saber-fazer’ no chão de fábrica. Precisa-se, antes de tudo, ‘saber-ser’. É aí que entra a leitura. Com ela, se abre um mundo paralelo ao que o aluno traz de casa, de suas vivências. Isso agrega ao funcionário, o faz um profissional diferenciado”.

A profa. Stella monitorou os alunos durante seis meses A profa. Stella monitorou os alunos durante seis meses

 

A opinião dos alunos 

“No começo do Projeto “Na contra (à mão) da Web” eu tinha a certeza de que não receberia um retorno da editora; mas, com o passar do tempo, percebi que o projeto ia além de somente receber respostas das editoras. Todo o processo foi algo que agregou muito conhecimento, não só a mim, mas a todos os envolvidos. Frequentar a biblioteca da escola para estudar por meio das revistas passou a ser rotineiro e fundamental, assim como ler a “O Mundo da Usinagem” me ensinou muito sobre minha área.” 

Thiago Henrique de Melo
Aluno da 1FMN (Fabricação Mecânica – 1o termo)

“Sempre fui uma pessoa de poucas palavras… Tenho dificuldade para fazer um discurso, a voz começa a falhar, começo a gaguejar e os pensamentos vêm uns por cima dos outros e acabo atropelando as palavras. Agora imaginem eu tendo que escrever um conteúdo em um formato de comunicação formal, respeitando toda a estrutura de uma carta, com alguém de um nível de instrução muito maior que o meu e sobre a qual eu pouco sei. Foi por isso que participar deste projeto foi um desafio e tanto e o prazer maior foi tê-lo concluído com sucesso. Se eu pudesse dar uma dica, ela seria: leia para pensar; mas escreva, para pensar melhor ainda.” 

Kleber Fernando Wesley da Silveira
Aluno da 1FMN (Fabricação Mecânica – 1o termo)

A turma do curso Fabricação Mecânica, que participou do projeto Na contra(à mão) da web A turma do curso Fabricação Mecânica, que participou do projeto Na contra(à mão) da web

 

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December 7th, 2016
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