Entrevista

Grandes desafios, boas perspectivas

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O presidente da Fiesp avalia a recessão do país e aponta possíveis soluções para a retomada

Por Inês Pereira

O imenso painel eletrônico na fachada do Edifício Luís Eulálio Bueno Vidigal Filho, conhecido como “Prédio da Fiesp”, testemunhou a mais recente história do país sendo construída. À sua frente, em plena Avenida Paulista, a população da cidade de São Paulo — à exemplo das grandes capitais do país — demonstrou seus desejos de mudança. 2016 foi um ano de acontecimentos importantes. O governo desenhou um novo traçado para o país, em que o empresariado brasileiro terá participação de peso.

À frente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, que ocupa 16 andares do edifício sede, Paulo Skaf tem o desafio de lançar uma nova luz sobre o difícil caminho a ser trilhado pelos 131 sindicatos patronais que representa, distribuídos em cerca de 130 mil indústrias de diversos setores de todos os portes e das mais diferentes cadeias produtivas.

Paulistano da gema, Paulo Antônio Skaf começou sua vida profissional trabalhando com o pai, tocando as empresas da família, no ramo da tecelagem. Empresário, adquiriu desde cedo a habilidade da negociação. Não por acaso, tem vasta experiência em ser a voz de um setor. Entre os anos 1980 e 1990, foi presidente do SindiTêxtil e da Associação Brasileira da Indústria Têxtil, Abit, da qual foi reeleito para um segundo mandato.

Desde 2007, é presidente da Fiesp, do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), do Serviço Social da Indústria (Sesi-SP), do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai–SP), do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e do Instituto Roberto Simonsen (IRS) — um centro de estudos avançados mantido pela indústria e voltado para a análise dos grandes temas nacionais. É também 2º vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Sobre o momento em que vivemos, Skaf é realista, considera esta a pior recessão desde os anos 1930. Mas acredita em dias melhores: “Somos um povo empreendedor, esperançoso, que não tem medo de batalhas. Podemos contribuir para fortalecer e muito a economia, mas dependemos das ações governamentais a serem tomadas”. O presidente da Fiesp aceitou o convite da revista OMU para conceder a Entrevista à seguir. Entre outras reflexões, ele conta o que a Fiesp espera para o futuro que já começou.

 

OMU: Qual o ônus e o bônus do desaquecimento da indústria da manufatura no país nesses últimos anos?

SKAF: A indústria de transformação vem sofrendo bastante nos últimos anos. Nossa expectativa é de um recuo de 6% do PIB da indústria de transformação em 2016, registrando o terceiro ano de contração. Para se ter uma ideia da gravidade, o PIB do setor retrocedeu para o mesmo nível do início de 2003. Segundo a Pesquisa do Nível de Emprego realizada pela Fiesp, em 2015 a indústria paulista demitiu 235,5 mil trabalhadores. Em 2016, foram fechadas 152,5 mil vagas do setor no Estado. De 2011 até 2016 foram 609 mil vagas fechadas, das quais 518 mil foram entre 2014 e 2016. Temos como ônus a perda de dinamismo da economia brasileira. Não há exemplo de país, com as características do Brasil, que tenha se desenvolvido sem ter uma indústria de transformação forte. Difícil falar sobre bônus, uma vez que o problema vem de fora para dentro. Somos um povo empreendedor, esperançoso, que não tem medo de batalhas. Podemos contribuir para fortalecer e muito a economia, mas dependemos das ações governamentais a serem tomadas.

 

OMU: A equipe de pesquisa da Fiesp projetou um crescimento de 0,8% do PIB, um impulso maior da indústria geral, de 1%, e 2% para a indústria de transformação. Qual a base para essas projeções? Podemos concluir que há uma perspectiva otimista para o país?

SKAF: Acreditamos que a recuperação da atividade econômica será bastante lenta. A expectativa de crescimento do PIB de 0,8% pode ser considerada modesta diante do quadro da economia brasileira nos dois anos anteriores. Depois de recuar 3,8% em 2015, esperamos queda do PIB de 3,5% em 2016, marcando dois anos consecutivos de que- da, algo que não ocorria no Brasil desde o biênio 1930-31. Vale destacar que a queda acumulada do PIB entre 2015 e 2016, da ordem de 7%, será superior ao observado no intervalo 1930-31, que foi de 5,3%. Vivemos uma recessão sem precedentes. Apesar dos indicadores estarem muito aquém do que gostaríamos, alguns sinais são positivos, destacando-se a redução da inflação e o início da queda dos juros, já intensificada na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de janeiro de 2017.

 

OMU: Como construir, a partir do atual contexto, uma agenda positiva, sustentável e de longo prazo?

SKAF: O governo já vem ampliando a agenda de reformas para equacionar o problema fiscal, o ineficiente sistema tributário, a excessiva burocracia, a elevada taxa de juros, e a precariedade da infraestrutura. Sobre a infraestrutura, é necessário que o governo acelere as concessões para ativar os investimentos no setor. Enfim, essas reformas são de extrema importância para que se consolide um ambiente econômico mais eficiente.

 

OMU: Na sua opinião, quais os setores da economia que apresentam melhores condições de crescimento em 2017? Por quais razões?

SKAF:Com a taxa de câmbio se mantendo em um nível de desvalorização, os setores mais voltados ao setor externo têm potencial para que o ano de 2017 seja mais positivo. Um bom exemplo é o agronegócio. Depois de um 2016 em que se verificou quebra de safra de importantes culturas, as perspectivas se mostram mais animadoras para 2017, como sinalizam os recentes levantamentos da companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

 

OMU: Além da luta contra o aumento de impostos e altas taxas de juros, quais os principais desafios para a indústria brasileira nos próximos anos?

SKAF: A aceleração da queda da taxa de juros, a manutenção da taxa de câmbio em níveis mais competitivos e um direcionamento sustentável do problema dos gastos públicos são fundamentais para que a indústria e a economia, como um todo, invertam o quadro recessivo no qual se encontram. Porém, é fundamental a implementação de reformas que melhorem o ambiente de negócios, devolva a confiança aos empresários e acelere o crescimento do país. A luta continuará contra o aumento dos impostos, os juros elevados, a precária infraestrutura, a excessiva burocracia, enfim,
contra o elevado Custo Brasil, que impede a indústria nacional de
ter condições de encarar a concorrência externa de maneira igualitária.

 

OMU: Pode resumir o diálogo estabelecido entre a Fiesp e o governo atual, do ponto de vista de importação e exportação? É possível destacar pontos de incentivo e aspectos que ainda precisam ser negociados?

SKAF: O fato de o presidente Michel Temer ter presidido, pela primeira vez em uma geração, uma reunião do Conselho de Ministros da Câmara de Comércio Exterior (Camex) foi uma demonstração clara da centralidade do comércio exterior para a sua gestão. A coordenação firme de todos os entes públicos e privados envolvidos nos processos de exportação e importação é fundamental para o sucesso da política comercial. O governo está atuando de forma proativa e ordenada nas questões de acesso a mercados, promoção comercial, facilitação de comércio, financiamento às exportações e aperfeiçoamento dos regimes tributários.

A Fiesp é atuante em todos os governos e vem participando ativamente das tratativas sobre a polítca comercial do atual governo, mantendo diálogo não apenas com os ministros José Serra e Marcos Pereira, como também com todo o corpo técnico do Itamaraty e do MDIC. Em dezembro último, a Fiesp recebeu representantes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e da Receita Federal para o lançamento de uma nova etapa do Portal Único de Comércio Exterior, que tem como finalidade reduzir o tempo de entrada e saída de bens nos portos. Isto pode representar uma economia de US$ 15 bilhões por ano. A Fiesp também apoia a ampliação das negociações comerciais com os países da América do Sul e com a União Europeia. O governo brasileiro foi bem-sucedido em concluir um acordo comercial inédito com o Peru, que contempla o comércio de serviços e as compras governamentais. Há também uma evolução bastante positiva com os europeus, apesar da complexidade que toda negociação exige.

 

OMU: De que forma a Fiesp pode contribuir para a modernização do parque fabril nacional e a consolidação da Indústria 4.0? O que faz e quais os projetos? Qual o papel do SENAI nesse sentido?

SKAF: A Fiesp tem muito a contribuir para a elaboração e a implementação de uma agenda estratégica para a Indústria 4.0. O cenário de crise torna essa tarefa ainda mais desafiadora, mas é preciso sair da inércia, e podemos contribuir com a proposição de políticas públicas que promovam o investimento e a gestão estratégica de informações, cujos pilares são estudos e análises que ajudam a dialogar com os principais stakeholders, além de aperfeiçoar marcos regulatórios, que resultam na melhoria do ambiente de negócios. A chegada da Indústria 4.0 assume caráter estratégico em duas frentes importantes: a tecnologia embarcada nesse novo chão de fábrica e a formação de capital humano responsável por operar e gerenciar essa infraestrutura. Por isso, o SENAI já está priorizando investimentos em laboratórios e equipamentos nos seus centros de excelência, com ênfase em automação, tecnologia da informação, robótica e segurança da informação, como em sua Escola de Mecatrônica, em São Caetano do Sul, além da adequação de seus currículos, principalmente na área da Metalmecânica. Também se dá ênfase às pequenas e micro em- presas para que acompanhem o cenário mundial quanto à competitividade e capacidade de exportação com o devido suporte em tecnologias de transição para adequar gradativamente suas instalações, máquinas, equipamentos e pessoal técnico. No Senai já são ofertados cursos de pós-graduação em Internet das Coisas (IoT) e Indústria 4.0. Por fim, destaco que para 2017 a rede Senai, em ação conjunta com os demais departamentos da Fiesp, as entidades e as instituições, terá como um de seus objetivos a implementação de tecnologia e inovação para Indústria 4.0, seja ela destinada a empresas de qualquer porte ou setor industrial no Estado de São Paulo.

 

OMU: Qual o impacto do pacote de medidas trabalhistas recém-anunciado para os atuais profissionais da indústria, bem como para as futuras gerações?

SKAF: As medidas são o início da modernização das relações de trabalho, cujas regras são da década de 1950. Há maturidade dos representantes dos trabalhadores e das empresas, o que permite fazer bons acordos sem perda de direitos. As pessoas precisam ser mais valorizadas. Outro exemplo envolve os novos negócios, nos quais o trabalho não é feito necessariamente em um escritório, pois atualmente temos dispositivos eletrônicos que nos permitem trabalhar remotamente com a mesma eficiência, criando novas formas de organização no trabalho. É uma quebra de paradigma de forma positiva, que ajuda a inserir o Brasil no contexto mundial.

 

A Fiesp em números 

• Representa cerca de 130 mil indústrias de diversos setores, de todos os portes e das mais diferentes cadeias produtivas, distribuídas em 131 sindicatos patronais.
• Conta com 12 Conselhos Superiores Temáticos, coordenados pelo Instituto Roberto Simonsen (IRS), que traçam diretrizes para os trabalhos dos departamentos: Competitividade e Tecnologia (Decomtec), Infraestrutura (Deinfra), Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon), Relações Internacionais e Comércio Exterior (Derex), Meio Ambiente (DMA), Jurídico (Dejur), Agronegócio (Deagro), Ação Regional (Depar), Segurança (Deseg), Indústria da Construção (Deconcic), Indústria de Defesa (Comdefesa), Micro, Pequena e Média Indústria (Dempi) e, ainda, o Departamento Sindical (Desin) e a Central de Serviços (Cser).
• Em todo o Estado de São Paulo, é representada por 53 diretorias regionais.
• Para garantir crescimento harmônico das diferentes cadeias produtivas, foram criados Comitês para 7 setores: cadeia produtiva da Bioindústria (Bio-Brasil), do Desporto (Code), Couro, Calçados e Artefatos (Comcouro), Mineração (Comin), Papel, Gráfica e Embalagem (Copagrem), Pesca e Aquicultura (Compesca) e Indústria Têxtil, Confecção e Vestuário (Comtextil).
• Há ainda os Comitês de Jovens Empreendedores, Ação Cultural, Responsabilidade Social e Acelera Fiesp.

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December 7th, 2016
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