Entrevista

Reinventando o amanhã

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O especialista em tecnologia explica porque a inovação disruptiva traz novos desafios à indústria

Por Inês Pereira

No universo da inovação disruptiva por onde Julio Vidotti circula, o erro é bem-vindo. Mais: é necessário. Lá, o segredo não é mais a alma do negócio. As jovens startups apresentam suas ideias antes mesmo de virarem produtos. Se precisar, mudam a rota na velocidade que exigem as transformações e as demandas do mercado. Sem salas fechadas ou divisórias, em espaços compartilhados, nos cafés ou em qualquer lugar, sempre em movimento, nascem novos modelos de negócios e formas inimagináveis de aplicar tecnologia.

Especialista em TI e engenheiro de formação, Vidotti foi executivo da IBM por 12 anos, saindo para abrir seu próprio negócio em automação comercial, em que ficou à frente até 2011. Foi para Harvard, onde fez uma imersão profunda no mundo dos negócios. De volta ao Brasil, em 2012, convidado a integrar o HBS Alumni Angels do Brasil, um grupo de investidores anjo, formado por ex-alunos de Harvard, iniciou o caminho que trilha até hoje, ligado à inovação. “Já avaliei mais de 600 startups, dei mentoria para mais de 100 e, atualmente, invisto em oito”. Ele próprio é dono de uma startup, a Hubblefy [hubblefy.com].

“Vamos entrar numa nova onda, em breve, onde uma nova disrupção vai destruir um modelo recém-chegado e ainda não consolidado. Será a disrupção da disrupção. E esse processo poderá ser contínuo, a partir daí”. Acompanhe, a seguir, a Entrevista concedida pelo especialista à reportagem da Revista OMU. Entre muitas opiniões sobre esse cenário de constantes redescobertas, Vidotti tem uma certeza: nada será como antes.

 

OMU: O que podemos entender como empresa disruptiva e inovação disruptiva, que hoje tanto se fala?
VIDOTTI: O conceito de disrupção tem a ver com destruição. É um modelo completamente diferente que vai destruir a forma que determinado negócio era feito anteriormente. O negócio pegou? Viralizou? Mudou o comportamento de todo mundo? Então você pode dizer que houve uma disrupção, pois um modelo foi quebrado. E pode ainda acontecer de uma nova startup quebrar algo que nasceu hoje! Isso pode ocorrer em qualquer mercado, como fez o Uber, o Airbnb, o Spotify, a Netflix etc. Eu li uma matéria dizendo que a Blockbuster, no passado, teve a oportunidade de comprar a Netflix por uns poucos milhões, e não quis. Como eles devem ter se arrependido…

 

OMU: As tecnologias disruptivas podem ser consideradas uma tendência inevitável? Por qual razão? Atendem alguma demanda do mercado?
VIDOTTI: Sim, com certeza atendem. Por que, então, a indústria do táxi ficaria tão impactada por essa inovação que virou disrupção? A resposta é simples: aquilo era uma sucata, sem qualidade nem treinamento, e nós dependíamos da estrutura. É um caminho sem volta. A inovação disruptiva muda o comportamento dos usuários, tornando o que se fazia mais fácil. Isso é irreversível.

 

OMU: Qual é o impacto da inovação disruptiva sobre as estruturas convencionais?
VIDOTTI: Hoje, já identificamos uma necessidade nas organizações maiores de começarem a pensar no assunto, com o risco de morrerem disruptadas. Os grandes bancos são um exemplo. Eles têm centenas, milhares de pessoas em TI cuidando de sistemas antiquados. Não conseguiram se modernizar de uma forma simples. Daí surgiram as iniciativas pontuais, que começam a ocupar os seus espaços: startups de cartão de crédito e de financiamento, como o Bank Fácil, atual Creditas, e o Nubank, cujo cartão de crédito sem anuidade é controlado 100% por aplicativo de celular, só para citar dois exemplos. Nenhum deles possui agência física. Iniciativa do Itaú, o Cubo [5 mil metros quadrados de coworking, startups e empreendedorismo, em São Paulo, onde Julio Vidotti recebeu a reportagem da Revista OMU] mostra o quanto a inovação disruptiva está no seu radar. Patrocinado pelo banco, o espaço promove e incentiva a inovação, não só para as startups, mas também trazendo empresas e organizações para conhecerem esse ecossistema novo, que compartilha ideias, conhecimento e onde tudo acontece muito rapidamente. Tudo que está sendo desenvolvido no Cubo, eles estão observando e usando.

 

OMU: Pode descrever a mentalidade disruptiva?
VIDOTTI: Essa mentalidade é essencial e também irreversível. Fomos educados, nas últimas décadas, a não errar. No mundo da inovação, errar é permitido e mandatário. Essa é a primeira diferença entre a organização tradicional e a disruptiva. Em resumo, mindset, que é o termo usado para designar essa mentalidade, tem dois pilares iniciais: erre bastante e rápido, pois isso vira aprendizado; antecipe ao máximo a sua ideia, o seu produto, o seu pré-produto. Não se concebia pensar dessa forma no passado. Nas startups, recomenda-se apresentar a ideia para o mercado o quanto antes e não mais guardá-la a sete chaves. Com isso, dá para antecipar algo que se levaria meses, até anos para apresentar; gastasse uma quantidade enorme de dinheiro, um monte de gente para fazer. O apoio da tecnologia mudou tudo. É possível criar o produto em algumas semanas, por no ar em um final de semana e, na seguinte, fazer ajustes, segmentar ainda mais, dependendo do propósito, e moldar conforme as novas demandas. O mindset traz à luz outra questão importante, que é com relação às pessoas. Para contratar profissionais até que é fácil. Mas há uma grande dificuldade de adaptá-los para trabalhar com inovação em uma startup ou em um grupo novo de corporate venture. É muito difícil trazer pessoas das áreas tradicionais por causa do mindset delas, o DNA não concebe, tem uma amarra.

 

OMU: Este seria o aspecto negativo da disrupção? O que você avalia em termos de prejuízo para o mercado?
VIDOTTI: Uma das principais preocupações que se discute quanto aos efeitos da disrupção é com relação à questão de como ficarão os empregos. De forma geral existem duas vertentes na visão dos especialistas do Vale do Silício e dos países que estão estudando esse tema: uma, que destaca que teremos impactos enormes na manutenção dos empregos atuais; e outra, que acredita que surgirão novos modelos e formas de trabalho. Se pegarmos como exemplo o “efeito Uber”, observamos que se criou milhares de oportunidades para pessoas de diversas classes sociais obterem uma remuneração extra dedicando horas variáveis de trabalho quando disponíveis. Provavelmente, alguns segmentos de mercado, como o bancário, sofrerão com um alto nível de desemprego, pois não haverá a necessidade de agências para atendimento de clientes. Acredito que o mercado encontrará um balanceamento, com o surgimento de novas formas de trabalho de um lado, e o desemprego de outro. Mas o trabalho da forma tradicional como a que conhecemos hoje, batendo o ponto, 8 horas contínuas por dia, com certeza não existirá mais na próxima geração. O livro Organizações Exponenciais [Ismail Salim, Yuri van Geest e Michael Malone, HSM Ed.] é uma ótima leitura sobre o tema.

 

OMU: Muitas pessoas, inclusive a própria mídia, confundem inovação e disrupção. Qual é a diferença conceitual? São excludentes? Ou podem coexistir?
VIDOTTI: Existe inovação que não vai exatamente gerar disrupção, não vai mudar o comportamento do mercado nem quebrar um nicho. Nem tudo que é inovador é disruptivo. Entretanto, um negócio disruptivo é sempre inovador. Conceitualmente, a inovação faz aquilo que já era feito de um modo totalmente diferente e melhor. A disrupção, como diz o termo, destrói. Ela sempre estará apoiada em tecnologia digital como smartphones, tablete etc. Sem isso, não se consegue escalar e criar uma rápida mudança no comportamento das pessoas.

 

OMU: Dos exemplos mais conhecidos, qual você destacaria, além do Uber? O que essas empresas e seus modelos de negócios têm em comum?
VIDOTTI: Tomarei novamente o exemplo do NuBank, um cartão de crédito que criou um app, não tem agência, não tem central de atendimento, mas é um cartão de crédito como qualquer outro. Por que tem fila de clientes esperando? Você se cadastra, faz tudo pelo aplicativo, pode regular seu crédito aumentando ou diminuindo, pode pagar a fatura do cartão antes e não precisa falar com ninguém. Se precisar, pode fazê-lo pelo aplicativo ou, se for muito necessário, pelo telefone. Mas tem um grupo enorme de pessoas lá que está preocupada com a experiência do usuário. Esse é o foco maior das empresas disruptivas: melhorar continuamente a experiência do usuário, diferentemente das empresas tradicionais que, mesmo que tendo o app, só usa para consultar algo específico ou pagar uma conta. E mais que isso, a maioria das pessoas pensam que o Nubank veio pra resolver um problema com cartões de crédito. Na minha visão é o embrião de um futuro banco. O cartão é somente a porta de entrada para capturar seus clientes. Veremos o futuro chegar, sempre focando na melhoria contínua da experiência com o usuário.

 

OMU: Como a inovação tecnológica se insere na indústria 4.0? O que vem sendo desenvolvido, que é considerado disruptivo? Internet das coisas entra nesse grupo?
VIDOTTI: A IoT em si não é disruptiva, é uma nova tecnologia mas tem grande potencial para gerar disrupção. Para a indústria, a IoT é um passaporte enorme para a disrupção. A disrupção normalmente é associada a uma inovação com base em uso de tecnologia aplicada aos consumidores, mas também poderá ser aplicada dentro da indústria com novas maneiras e processos de fabricação, como a chegada da impressoras 3D, que já começa a mudar os processos tradicionalmente utilizados até então. Nos processos fabris, os equipamentos vão se tornar inteligentes e conectados, e isso já vem acontecendo em alguns países.

A economia compartilhada, que também influencia na tendência da disrupção, gerará enormes impactos na indústria de forma geral. Este tema é bastante amplo e merece atenção especial por todos os gestores e empreendedores, caso contrário em curto espaço de tempo, de 5 a 10 anos, tais organizações poderão não mais existir. Minha recomendação para estes próximos anos é de iniciar programas de inovação de fato — e não ficar simplesmente fazendo seminários sobre o tema. E seguir os conceitos já testados de Corporate Venture, em que se pode “contratar” e usar novas tecnologias de startups evoluindo progressivamente o negócio; ou “acelerar” startups internamente trazendo inovação rapidamente; ou “criar” startups dentro da organização; ou “investir” em startups que estão prontas no mercado e buscam investimentos.

 

OMU: Quais ramos de atividades apresentam maior potencial para disrupção? Pode apontar tendências para os próximos cinco anos?
VIDOTTI: Sabemos que a inovação disruptiva poderá ocorrer em todos os segmentos do mercado. Conforme estudos realizados em Harvard pelo professor Thales Teixeira, na primeira onda da disrupção digital foi quando surgiu o Google, o iTunes, a Netflix, o Kindle dentre outros, desempacotando as ofertas anteriores para um novo modelo digital. A segunda onda ocorreu e continua acontecendo nos mercados de turismo (hotéis, voos, serviços) e também em finanças que se baseou na desintermediação. E estamos vivenciando agora a terceira onda, referenciada pelo desacoplamento de um ou mais elos da cadeia de fornecimento. Por exemplo, na indústria do consumo, temos as fases de avaliação, escolha, compra e por fim o consumo, que tradicionalmente são feitos por uma indústria e sua rede de distribuição ou representantes. Chama-se de desacoplamento (Decoupling) a quebra destes elos, de forma que uma única iniciativa de desacoplar gere uma disrupção. O desacoplamento é a quebra dos elos existentes entre atividades do consumidor que eram tradicionalmente oferecidas em conjunto. 

Já observamos este movimento em diversos mercados,  dentre eles o automotivo, em que você não precisa mais comprar um carro para se transportar, ou não precisa se preocupar com manutenção do veículo, em que uma única mudança quebra toda a sequência da cadeia tradicional; um segundo exemplo, o segmento de seguros, que viverá uma enorme transformação muito em breve.

 

OMU: Você pode traçar um panorama resumido sobre o avanço da transformação digital dos negócios e seus efeitos evolutivos e disruptivos para as empresas?
VIDOTTI: Ao ser criado, o smartphone (que é um hardware, uma caixinha) mudou o comportamento das pessoas completamente. Pode não ter sido tão rápido, foi uma evolução do celular, que também foi disjuntivo. Mas voltemos ao passado: antes do celular, teve o telefone fixo; e antes do telefone fixo tinha o quê? O e-mail foi uma disrupção que acabou com o correio, assim como o Whatsapp foi uma disrupção do e-mail, embora ele ainda exista. Mas o Whatsapp é uma forma mais rápida, que também impactou a indústria de telefonia. Não se pagava para enviar torpedos? Agora fazemos isso de graça. Nesse sentido, o Whatsapp gerou uma disrupção para a Vivo, a Oi, a Tim… A minha filha pequena, por exemplo, não conseguia imaginar como era a vida da avó, que nasceu no interior e não havia energia elétrica naquela época na região. Os jovens hoje não conseguem imaginar, e os nossos bisnetos, daqui uns cinquenta anos, não vão nem saber o que é cloud [tecnologia da nuvem]. Não vai se falar disso, pois vai ser como a energia elétrica — as pessoas estão preocupadas em saber como funciona a energia elétrica?

 

OMU: Quanto tempo levará para que o modelo disruptivo se consolide na indústria mundial?
VIDOTTI: Acredito que não viveremos mais esses tempos de consolidação como ocorreu no passado. Observe quanto tempo levou para a adoção da energia elétrica no mundo, depois a telefonia, depois os celulares, na última década os smartphones, e agora a cloud. Existem mais de 4 mil startups em nosso país, e no mundo afora isso se multiplica aceleradamente. Todas elas trazendo formas de simplificar a nossa vida, reduzindo tempo, reduzindo custos e aí por diante. Já surgiram novos nomes no ecossistema de startups para fortes iniciativas de inovação e disrupção, as Fintechs (na área de finanças), as Edutechs (nas áreas de educação), e aí vem as IoTTechs, as Insurtechs, as AgroTechs, as InduTechs e não se para mais. É muita gente trabalhando e pensando em inovação. Esse processo é irreversível, e quem ganhará com isso será a humanidade. Alguns países e organizações poderão barrar estas iniciativas, por meio de tentativas de regulamentação, lobby etc., mas dificilmente conseguirão se manter se não se adequarem e se apoiarem ao novo comportamento do consumo. 

 

OMU: O que vem sendo desenvolvido aqui, nas startups brasileiras?
VIDOTTI: Temos observado iniciativas em praticamente todos os segmentos. O ecossistema de startups no Brasil se desenvolveu muito nestes últimos dois anos, com a iniciativa do CUBO do Itaú e Redpoint, do CAMPUS do Google, das Aceleradoras, dos programas de inovação — à exemplo do Inovativa, do MDIC do Governo — e assim por diante. Por exemplo, eu apoio startups que trazem desde uma nova forma de desburocratizar processos de contratação, em que se assina um contrato com um clique em um e-mail onde não precisa de certificado digital e nem de um cartório para reconhecer firmas, até uma iniciativa que nos permite assistir pela web um show que está passando em uma casa noturna em Nova York, ao vivo. Posso lhe garantir uma coisa, nossa vida será cada vez melhor com as inovações que estão chegando.

 

OMU: As ferramentas de tecnologia acompanham as necessidades crescentes do mercado e dos novos modelos de negócios? Quais são os maiores desafios, nesse sentido?
VIDOTTI: As ferramentas obrigatoriamente acompanham as necessidades crescentes de mercado, porque senão elas mesmas não sobrevivem. No meu caso, estou neste mercado de startups desde 2012, quando resolvi lançar uma nova empresa. Na época, não conhecia nada sobre inovação, disrupção ou startups. Quebrei a cara, foi difícil. Não conseguíamos entrada nas grandes organizações, porque elas não estavam preparadas para fazer negócio com pequenas, até que resolvemos mudar tudo. Focar nas pequenas e médias, mudar completamente a tecnologia. Jogamos tudo fora e construímos de novo do zero, porque o mercado pedia isso. E o que veio para ser uma intranet dinâmica, muito mais simples e fácil do que um sharepoint fazia na época, acabou virando um hub para informações que estão dispersas no negócio.

Agora estamos escalando.

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April 24th, 2017
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