O Mundo da Usinagem
Com a crescente demanda por aumento de produtividade na indústria, as máquinas empregadas nas operações de usinagem devem estar equipadas com sistemas e ferramentas que permitam processos cada vez mais eficientes para garantir máxima qualidade na produção. Quando se trata de peças complexas e com características severas – que requerem preparação especial da máquina –, contar com recursos de alta precisão se torna ainda mais importante.
A usinagem de parafusos e peças roscadas, por exemplo, pode ser otimizada com a técnica de turbilhonamento. Este procedimento é aplicado normalmente na usinagem de peças que apresentam roscas standard ou especiais quando a relação comprimento/diâmetro torna instável a operação de usinagem convencional.
Realizada por meio de um turbilhonador – porta-ferramentas acionado que pode conter até 12 pastilhas de corte perfiladas para usinagem de roscas externas e até seis arestas para roscas internas –, a técnica de turbilhonamento é ideal para a usinagem de peças de pequena dimensão, como implantes dentários e parafusos ortopédicos. Além disso, a técnica também é recomendada para o trabalho em materiais resistentes ao corte, como o aço inoxidável e o titânio. “No Brasil, esta tecnologia já é muito utilizada na usinagem de peças que possuem microrroscas, principalmente em componentes voltados à área médica”, aponta José Barbosa da Silva Filho, coordenador de Produtos da Ergomat – um dos principais fabricantes de tornos automáticos do País e representante dos tornos automáticos CNC de cabeçote móvel STAR, do Japão.
De acordo com o engenheiro de Aplicação Lucas Rocha, do fabricante espanhol de turbilhonadores Madaula, quando se trata de usinar parafusos, peças roscadas e materiais de difícil usinabilidade, poucos processos são tão eficazes quanto a técnica de turbilhonamento. “Com a utilização do turbilhonador, as operações de usinagem podem chegar a ser até nove vezes mais rápidas do que as convencionais, e em alguns casos inclusive é possível dispensar as operações de acabamento”, garante Rocha.
Turbilhonador para roscas externas operando em um torno automático CNC da STAR |
Apesar de o sistema poder ser instalado em qualquer torno com ferramenta acionada, sua aplicação é mais comum em tornos automáticos CNC de cabeçote móvel (tipo suíço). “Dependendo da peça que será usinada é possível aplicar um turbilhonador interno em um centro de usinagem, desde que a máquina mantenha a mesa giratória sincronizada com o avanço linear da ferramenta”, explica José Barbosa, da Ergomat.
Divididos basicamente em dois tipos – para usinagem de roscas internas e para roscas externas –, os turbilhonadores são instalados na estação rotativa do torno, onde o cabeçote porta-ferramentas (geralmente equipado com múltiplos dentes de corte para o roscado) gira em torno do material a ser usinado.
A usinagem de roscas externas se inicia com o movimento longitudinal da peça para dentro do porta-ferramentas, momento em que a rotação do turbilhonador alcança aproximadamente três mil rpm, enquanto a do material em operação estará entre 10 e 20 rpm. Durante o processo, é importante que o avanço do material (eixo Z) e a rotação do fuso ao qual a peça está fixada (eixo C) estejam sincronizados para que se obtenha o passo da rosca no comprimento programado desejado, atendendo assim as especificações de desenho da peça.
Formato circular das pastilhas do turbilhonador garante excelente resistência da ferramenta |
Uma vez instalada no campo de trabalho e já na posição final, a rosca é usinada pelo turbilhonador em passada única, proporcionando redução de até 50% no tempo do ciclo de usinagem em comparação com o processo convencional. Segundo Rocha, da Madaula, a forma circular das pastilhas do turbilhonador também contribui para um rendimento mais econômico das operações, pois propicia maior resistência para a ferramenta ao mesmo tempo em que garante espaço suficiente para a saída de cavacos. “Além disso, cada fio de corte tem capacidade para roscar centenas de peças, podendo ser reafiado muitas vezes antes do final de sua vida útil”, aponta o engenheiro.
Nas operações de turbilhonamento externo, onde há alto volume de remoção de cavacos, é comum a aplicação de bomba de alta pressão para o fluido refrigerante. “Com a utilização da bomba de alta pressão, evita-se a formação de arestas postiças nas pastilhas de corte, otimizando a saída dos cavacos e garantindo a qualidade final da rosca”, ressalta o coordenador da Ergomat.
Na usinagem de roscas internas, o acionamento do turbilhonador pode ser pneumático ou elétrico, a rotação do porta-ferramentas passa a ser de 30 mil rpm e o giro da peça de cerca de 20 rpm.
O engenheiro Rocha informa que a escolha do formato do turbilhonador (que pode ser circular ou retangular) depende do tipo de equipamento em que ele será instalado. O cuidado é necessário para garantir uma adequada adaptação à máquina. “A função do aparelho é a mesma em ambos os formatos; desenvolvemos produtos que podem ser adaptados a diversos modelos de tornos”.
Além de oferecer redução no tempo necessário para completar o ciclo de usinagem, a técnica do turbilhonamento também garante roscas isentas de rebarba, obtidas com baixa produção de cavacos. Por apresentar mais arestas que ficam em contato com a peça durante o corte, a usinagem é mais suave, ampliando assim a vida útil das ferramentas empregadas no processo.
Turbilhonador instalado na estação rotativa do torno STAR, onde o
cabeçote porta-ferramentas gira em volta do material a ser usinado |
Fabricante de implantes ortopédicos desde 1992, a IOL Implantes Ortopédicos utiliza o processo de turbilhonamento há dois anos. A empresa emprega a técnica na fabricação dos parafusos Âncora e dos parafusos da Placa Volar. Por serem peças muito pequenas, a usinagem destes produtos exige a utilização de ferramentas especiais. “Precisamos ter cuidado com a qualidade superficial do produto final, e a técnica do turbilhonamento nos proporciona precisão e acabamento adequados”, revela Sérgio Prete, sócio-gerente da IOL.
• Usinagem de roscas internas ou externas isentas de rebarba
• Usinagem de roscas em passo único
• Acabamento do produto com excelente qualidade superficial
• Redução do tempo da operação
• Corte de rosca mais suave
• Aumento da vida útil das ferramentas de corte
Na avaliação do coordenador da Ergomat, embora a técnica de turbilhonamento seja relativamente nova, ela já vem obtendo boa aceitação no mercado por se tratar de uma alternativa mais econômica ao investimento em máquinas exclusivas para a usinagem de roscas. “A tendência é ampliar a aplicação do sistema na produção de peças roscadas que exigem alta precisão, devido ao seu ótimo custo–benefício”, explica José Barbosa. O turbilhonador pode ser instalado posteriormente em qualquer máquina que apresente ferramenta acionada e eixo “C”, sem a necessidade de recurso especial de programação.
Fernanda Feres
Jornalista
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