O Mundo da Usinagem
Caminhar pelas ruas de São Paulo durante os anos 1920 já era uma experiência multicultural. A cidade abrigava um elevado número de imigrantes de diversos países, pessoas que haviam deixado suas terras com a esperança de encontrar trabalho e melhores condições de vida. A maioria destes habitantes eram portugueses, espanhóis e italianos; e o Estado de São Paulo era um dos principais focos deste fluxo migratório. Dos cinco milhões de estrangeiros que entraram no Brasil entre 1870 e 1949, mais de 50% vieram para esta região do País.
Segundo Yvone Dias Avelino, professora titular do Departamento de Estudos e Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), na década de 20, um em cada quatro habitantes do Estado de São Paulo era imigrante, e os italianos representavam 40% desta população estrangeira. Por isso, era comum ouvir o idioma italiano nas ruas da capital, tanto quanto o português.
Com destaque no setor metalmecânico, imigrantes contribuíram para o desenvolvimento da indústria nacional
Ao mesmo tempo em que este número expressivo de italianos desembarcava no Brasil – entre os anos 1870 e 1907, um total de 1.208.042 italianos entraram pelo Porto de Santos –, a cidade de São Paulo se configurava como o carro-chefe da industrialização brasileira. Com a fundação de centenas de fábricas dos mais variados segmentos, em 50 anos (de 1870 a 1920) o cenário paulista foi se transformando completamente. Enquanto em 1870 as fábricas brasileiras ainda eram raras, e produziam basicamente derivados da cultura agrícola do País – como a indústria têxtil, que se servia do algodão –, em 1913 já havia 300 importantes indústrias operando no Estado.
Em 1891, dos 50 mil trabalhadores da indústria do Estado de São Paulo, 90% eram imigrantes vindos da Itália
E os italianos desempenharam papel de destaque ao ajudar a escrever esta história. De acordo com a professora Yvone, no ano de 1891, dos 50.000 trabalhadores que atuavam na indústria do Estado de São Paulo, 90% eram italianos. Ao lado de outros estrangeiros, estes imigrantes trouxeram a força que a indústria precisava para avançar, trabalhando nas fábricas como operários ou instalando suas próprias indústrias.
Atentos às tendências do crescimento industrial brasileiro, os empresários italianos que já contavam com algum recurso aproveitavam para estabelecer seus negócios no Brasil. Neste processo, colaboravam para o enriquecimento técnico de nosso parque industrial.
Estande da ROMI durante a Feira da Mecânica, em 1959 |
Francesco Paternó, secretário geral da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio, observa que os imigrantes que instalaram suas fábricas no Brasil no começo do século passado influenciaram o desenvolvimento da indústria nacional. E esta presença foi significativa principalmente no ramo metalmecânico. “Além de ter um perfil muito empreendedor, estes imigrantes mantinham contato próximo com a Itália e traziam de lá muitos equipamentos que o Brasil ainda não conhecia, como furadeiras, prensas e tudo o que podia fazer parte da indústria de base do País”, relata Paternó.
Nos anos 20, o principal destaque da indústria brasileira foram as Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo. Tendo aportado no Brasil em 1881, o italiano Francisco Matarazzo se instalou inicialmente em Sorocaba (SP) e começou fabricando latas para armazenar banha animal – produto de uso comum na culinária da época. Quase 50 anos depois, o sucesso de seus empreendimentos o levou a figurar entre os três maiores industriais do mundo. Seus negócios incluíam os mais variados ramos de atuação, desde moinhos de trigo e destilarias de álcool até fábricas de louças, pregos e tecelagens.
Funcionários da ROMI comemoram a fabricação do milésimo torno, no ano de 1943 |
O empresário foi também o fundador da Metalúrgica Matarazzo, uma das primeiras fabricantes de embalagens metálicas do Brasil. Sua presença foi decisiva para a fundação do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo, em 1928. Mais tarde a entidade daria origem à atual Fiesp – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo –, atualmente a principal representante da indústria brasileira.
Nardini foi uma das empresas de origem italiana que se destacaram na industrialização do País. Na foto, operária da década de 60 |
Várias outras empresas de origem italiana também se destacaram no início da industrialização brasileira. Um bom exemplo é a Nardini, fundada em 1908 pelo imigrante italiano Domingos Nardini. No início, a empresa produzia ferramentas agrícolas simples, como ferraduras, tesouras, foices e facões. Outro exemplo é a ROMI. Instalada em 1930 por Américo Emílio Romi no município de Santa Bárbara d’Oeste (SP), a empresa nasceu como uma pequena oficina de conserto de automóveis. No início, quando também era produtora de implementos agrícolas, a Romi fabricou o primeiro trator brasileiro – o TORO. Com o desenvolvimento industrial do período posterior à Segunda Guerra Mundial, ambas as empresas se consolidaram como importantes fabricantes de máquinas-ferramenta – segmento em que se destacam até hoje.
Outro exemplo é o dos irmãos Lorenzo e Eugênio Lorenzetti. Inicialmente com o objetivo de produzir materiais elétricos, os irmãos vieram para o Brasil nos anos 20 e, desde então, a Lorenzetti passou também a operar com a trefilação de eixos, montagem de máquinas e fabricação de equipamentos que serviram para abastecer a indústria brasileira.
Todavia, a maioria dos imigrantes italianos que morava em São Paulo tinha uma vida bem diferente da destes pioneiros empresários. As condições de trabalho eram muitas vezes insatisfatórias: salários ínfimos, cargas horárias elevadas e péssimas condições nos ambientes de trabalho de então. Por isso, muitos destes operários passaram a reivindicar o direito a melhores condições para trabalhar nas indústrias. Como os imigrantes italianos correspondiam a boa parte deste contingente, sua participação foi também relevante na busca das melhorias conquistadas pelos trabalhadores.
Mooca ainda conserva galpões tipicamente industriais, como o antigo prédio do
Cotonifício Crespi |
Um dos principais personagens deste movimento foi Antônio Piccarolo, italiano que chegou ao Brasil em 1904 e foi uma influente personalidade na defesa dos trabalhadores. Mediando os interesses dos operários e dos empresários da época, Piccarolo pretendia criar novas condições de trabalho que fossem interessantes para ambos os lados.
Além da forte colaboração na indústria, muitas são as influências deixadas pelos italianos na cidade de São Paulo. Bairros que acolheram os imigrantes como Mooca, Brás, Belém, Bexiga, Bom Retiro e Barra Funda ainda guardam características da cultura daquele país.
Para saber mais sobre a influência italiana na industrialização do Estado de São Paulo, vale a pena conferir os seguintes livros:
Brás, Bexiga e Barra Funda, de Alcântara Machado
Um socialismo possível: A atuação de Antônio Picarollo em São Paulo, de Alexandre Hecker
Matarazzo - A travessia, de Ronaldo Costa Couto
A Mooca é um destes lugares, ao mesmo tempo histórico e pitoresco, onde muito desta influência permanece intacta. Foi ali que a colônia italiana fundou o Clube Juventus – homenagem ao time de futebol homônimo da cidade italiana de Turim –, e é lá também que se encontra o antigo prédio do Cotonifício Crespi – companhia têxtil de Rodolfo Crespi, outro pioneiro da indústria paulista. De perfil tipicamente industrial, com suas ruas repletas de galpões de arquitetura centenária, o bairro é ainda hoje palco da Festa de San Gennaro, tradicional comemoração anual da colônia. A Mooca abriga também o Memorial do Imigrante, que reúne fotos e documentos históricos de personagens que deixaram sua terra natal em busca de um futuro melhor.
Em meio a este cenário de heranças italianas, o premiado restaurante Don Carlini inaugurou em setembro de 2009 um dinner show pioneiro no País. Trata-se do primeiro espetáculo temático permanente destinado a resgatar os elementos desta cultura, tão marcante na consolidação da identidade de São Paulo.
Dinner Show: evento reúne teatro, gastronomia, música e dança italiana |
Denominado Mooca Mia! – uma alusão à conhecida expressão “Mamma Mia!” –, o evento reúne num só espaço gastronomia, teatro, música e dança folclórica, simulando uma viagem à Itália. Em um cenário que ambienta uma praça italiana, por algumas horas o visitante pode se sentir levado para as estreitas vielas do país.
A música é o artifício utilizado para guiar toda a viagem temática. O espectador pode assistir à apresentação de um tenor e ouvir canções típicas da Itália, como Funiculì, Funiculà e O Sole Mio. Além do jantar, o espetáculo conta com intervenções teatrais baseadas na commedia dell’arte (forma de teatro popular improvisado) e uma apresentação de balé folclórico que revive a dança das tradicionais tarantellas.
No espetáculo Mooca Mia!, a música é utilizada para guiar a viagem temática ao país europeu |
A iniciativa conta com o apoio do São Paulo Convention & Visitors Bureau, da Secretaria de Lazer, Esportes e Turismo do Estado de São Paulo e da empresa de turismo SPTuris. Arthur Carlini, proprietário do restaurante, prevê boas perspectivas para o espetáculo no próximo ano. “Já temos 40 shows agendados para 2010; mas a expectativa é de que este número seja duplicado”, revela o empresário.
Concebido para divertir principalmente os turistas que passam pela capital paulista, o espetáculo Mooca Mia! pretende evidenciar a influência do italiano na cidade e no País, além de homenagear os cerca de 25 milhões de oriundi (descendentes de italianos) que moram no Brasil. Para conferir o calendário dos shows, acesse o site www.moocamia.com.br
Thaís Tüchumantel
Jornalista
Junto dos cerca de um milhão de italianos que desembarcaram no Porto de Santos (SP) entre 1870 e 1907, munidos de esperança e sonhos, vieram também os costumes e as tradições italianas. As macarronadas nos finais de semana, os grandes almoços em família e um bom vinho. Vegetais como rúcula e a alcachofra, que faziam parte das hortas destes imigrantes, foram então incluídos na culinária brasileira. Além do vinho gaúcho, que passou a utilizar novos tipos de uva trazidos pelos primeiros colonos para dar novo sabor à sua produção.
Nos esportes, a colônia italiana teve um papel muito importante. Em 1914, estes imigrantes fundaram o clube Palestra Itália, que mais tarde, na época da Segunda Guerra Mundial, teve seu nome mudado para Sociedade Esportiva Palmeiras.
Quanto à língua, algumas palavras estão presentes em nosso dia a dia. Palavras como cantina, cascata, fiasco e carnaval têm sua origem no idioma italiano. Porém, a expressão mais conhecida é o "ciao", que foi transformado em nosso País em "tchau".
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