O Mundo da Usinagem
Este artigo baseou-se na experiência de implantação do sistema de manufatura enxuta em uma empresa de autopeças, com ênfase nos possíveis pontos de atrito na nova filosofia de trabalho da organização, a partir da modernização dos conceitos de fabricação e o ‘moral’ do trabalhador.
O fabricante de automóveis Toyota criou um sistema de produção que foi denominado de Lean Manufacturing pelos autores Womack, Jones e Roos, no livro A Máquina que Mudou o Mundo, de 1990. Este sistema foi definido como sendo uma filosofia operacional que, por meio da melhoria do fluxo produtivo, tem como meta menores tempos para a entrega de produtos e serviços, com qualidade elevada e baixos custos. Tudo isso é possível devido à eliminação dos desperdícios no fluxo de valor; deste modo, o sistema Lean Manufacturing pode trazer inúmeros benefícios desde que sejam aplicadas as ferramentas adequadas.
Mudar aspectos culturais e práticas organizacionais de uma empresa, com base nesta filosofia, torna possível aumentar a produtividade, reduzir o tempo de entrega, eliminar perdas e desperdícios, e tornar a produção da indústria mais enxuta e flexível, atendendo assim à demanda dos clientes. No livro O Sistema Toyota de Produção; Além da produção em larga escala, o autor Ohno ressalta ser indispensável uma ‘revolução na consciência’ para que uma empresa evite o desperdício representado por uma superprodução, e acrescenta que a sociedade industrial deve desenvolver o bom senso e uma mudança de atitude. Como se trata de mudanças de crenças e métodos de trabalho, existe a alteração de um estado que é conhecido como cultura da empresa e, com a implantação de um sistema de manufatura enxuta, é possível ampliar a autonomia dos funcionários.
Um dos pontos importantes da autonomia é que ela é vista como crítica no processo de mudança organizacional. Muitos programas de autonomia têm sido implementados de forma equivocada para desautorizar, ao invés de autorizar funcionários. O que os gerentes das organizações podem fazer para solucionar esta questão é criar ambientes onde as pessoas se autorizem por si próprias.
Em A Máquina que Mudou o Mundo, Womack aponta os dois aspectos organizacionais mais relevantes de uma fábrica enxuta:
• “Transfere o máximo de tarefas e responsabilidades para os trabalhadores que realmente agregam valor ao carro, e possui um sistema de detecção de defeitos que rapidamente relaciona cada problema, uma vez descoberto, à sua derradeira causa”.
Estudos revelam que os trabalhadores reagem apenas se existe algum senso de compromisso mútuo entre colaboradores e empresa
• “Para que isso ocorra, há necessidade de trabalho em equipe e um sistema abrangente de informações, permitindo a qualquer um responder aos problemas e conhecer a situação global. Nas antigas fábricas de produção em massa, os gerentes escondiam informações por verem nelas a chave para seu poder. Numa fábrica enxuta, todas as informações são exibidas em quadros eletrônicos luminosos visíveis de todas as estações de trabalho”.
Lean Manufacturing pode trazer inúmeros benefícios desde que sejam aplicadas as ferramentas adequadas
Além das características descritas acima, os estudos das fábricas com produção enxuta revelam que os trabalhadores reagem apenas se existe algum senso de compromisso mútuo, uma visão de que, se os gerentes realmente valorizam os trabalhadores qualificados, farão sacrifícios para mantê-los e estão propensos a delegar responsabilidade à equipe.
![]() |
O Sistema Toyota de Produção é um sistema de gestão que procura otimizar a empresa de forma a atender as necessidades do cliente ao mesmo tempo em que aumenta a segurança e o ‘moral’ de seus colaboradores, envolvendo e integrando não só a manufatura, mas todas as áreas da empresa.
De acordo com autores como Silva, Cimbalista e Weber, entre outros citados em nossas referências bibliográficas, os gerentes devem levar em conta – se quiserem obter a lealdade e o comprometimento com a produção – o ‘moral’ do trabalhador. Esta expressão é entendida como a afirmação e a manutenção do respeito próprio, essencial para o comprometimento desejado. Assim, acredita-se que o trabalhador passa a interferir positivamente nas taxas de absenteísmo porque, se ele está de fato comprometido com os objetivos da empresa, não é lógico que ele, nem a empresa, desejem altas taxas de rotatividade.
O trabalho transcende o seu local, vai além do tempo regulamentar da jornada, interferindo fora do ambiente da empresa, influenciando e envolvendo a vida do colaborador como um todo. Estas condições de vida e trabalho levaram à reflexão sobre as adversidades no trabalho e suas correlações com a subjetividade do trabalhador.
![]() |
A adversidade é colocada como um fenômeno presente nas situações singulares que causa contrariedade por não satisfazer as expectativas sociais que os indivíduos carregam consigo; em função do aprendizado sociocultural está presente também nos níveis de dificuldade vividos pelo trabalhador, como o ritmo intensificado, a pressão, a responsabilização no trabalho e a tentativa de superação das limitações próprias por meio da resiliência (veja quadro).
Com a implementação de um sistema de manufatura enxuta, é possível ampliar a autonomia dos funcionários da organização
Desta forma, a adversidade no trabalho absorve a subjetividade do colaborador em seu cotidiano sob o sistema de produção flexível, colocando o indivíduo frente a desafios e padrões anteriormente estabelecidos. Vale lembrar que, por trás das diversas diretrizes feitas pela empresa, ainda atuam os valores organizacionais que movem o ‘moral’ dos trabalhadores. O comprometimento deles constitui um mote que facilita a implementação de novos métodos de trabalho.
Quando o trabalhador submete-se, obedece, conforma-se, aceita, entrega-se e muitas vezes até constrangese e subjuga-se, ou seja, adequa-se e deixa-se dominar pelas regras do sistema de produção flexível nas empresas, pode-se dizer que se está diante de atitude de resiliência.
As circunstâncias de trabalho relatadas expõem as situações adversas às quais os trabalhadores são submetidos e, principalmente, o sentimento posto em palavras sobre o cotidiano e suas perspectivas com relação ao trabalho. O peso do ritmo, da rotina das atividades, faz o funcionário refletir sobre suas condições de trabalho e seu futuro na empresa. Essa reflexão, dependendo de fatores como a cultura, os valores, a religião, o caráter e a motivação, entre outros, poderá se converter em uma atitude resiliente, ou seja, na capacidade de adequar-se às novas situações.
Motivação é um processo de satisfação de necessidades, sendo que necessidade significa algum estado interno que faz com que resultados pareçam atraentes, e com motivação é possível atingir todas as intenções de mudança. No livro Motivation and Personality (em português, Motivação e Personalidade), de 1954, o autor Maslow formulou uma hipótese segundo a qual dentro de todo ser humano existe uma hierarquia de cinco necessidades. Segundo ele, com a satisfação de cada necessidade segue-se à dominação da seguinte. São elas: fisiológicas (fome, sede, abrigo e sexo), de segurança (segurança, estabilidade e proteção contra danos físicos e emocionais), de associação (necessidade de interação social, afeição, companheirismo e amizade), de estima (autorrespeito, amor próprio, autonomia e realização, status, reconhecimento e consideração) e de autorrealização (crescimento, autossatisfação e realização do potencial social). Deste modo, para motivar qualquer indivíduo ou no caso, grupo de trabalhadores, é fundamental que boa parte das necessidades estabelecidas por Maslow sejam contempladas.
A motivação e o comprometimento dos funcionários para a implantação da manufatura enxuta dentro da empresa podem ser avaliados pelo número de sugestões e pelo número de funcionários participantes. Essa percepção é oriunda dos critérios das avaliações formais do nível de excelência das organizações que participam de prêmios da qualidade de gestão.
A empresa de autopeças que implantou o conceito Lean Manufacturing criou o Programa de Sugestões de Melhorias (PSM) justamente para estimular a efetivação, na prática, de todo o potencial das ideias e a criatividade dos funcionários da empresa. Os objetivos do programa foram: motivar os colaboradores a apresentar oportunidades de melhoria; criar um canal para a proposição e implementação das melhorias; identificar e eliminar desperdícios na produção e administração, com nenhum, ou quase nenhum, investimento; melhorar a comunicação e informação entre as gerências e os funcionários; e buscar o uso racional de todo o equipamento industrial. Outra oportunidade de apresentação de melhorias é o concurso de projetos (Desafio TQM), um evento anual promovido pelo grupo desta empresa multinacional que tem como princípio estimular a realização de projetos de melhoria que tragam resultados financeiros e também não-financeiros.
![]() |
Os objetivos do concurso são: estimular a excelência em todos os processos e atividades, com intuito de alcançar desempenho em âmbito mundial e satisfação dos clientes; aumentar a motivação dos colaboradores por meio do reconhecimento oficial dos resultados por eles alcançados; realizar benchmarking dentro do grupo da multinacional a partir do compartilhamento de boas práticas; e promover e dar suporte às iniciativas para a melhoria contínua.
Artigo produzido por Carlos Ancelmo de Oliveira, Laércio Avileis Junior e Iris Bento da Silva, com base no 'Projeto de Sistemas de Manufatura Enxuta' - trabalho realizado durante o curso de pós-graduação acadêmica em Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia Mecânica da UNICAMP, concluído em 2008.
Resiliência é uma propriedade mecânica que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica. Este termo também vem sendo utilizado no mundo corporativo em um sentido fi gurado para designar quando um colaborador se adapta facilmente às mudanças propostas pela empresa. Acompanhe este artigo e saiba mais detalhes sobre a defi nição deste termo no conceito de produção enxuta.
- Womack, J., Jones, D., Roos, D. A Máquina que Mudou o Mundo. New York: Rawson Associates, 1990. - Ohno, T. O Sistema Toyota de Produção; Além da produção em larga escala. Trad. Cristina Schumaker, Bookman, Porto Alegre, 1997.
- Seldin, R., Rainho, M.A.F., Caulliraux, H.M. O Papel da Cultura Organizacional na Implantação de Sistemas Integrados de Gestão - um tratamento sobre resistência à mudança. In: ENEGEP, 23, 2003, Ouro Preto. Anais... Ouro Preto, 2003, 8 p.
- Spreitzer, G.M., Doneson, D. Musings on the Past and Future of Employee Empowerment: Hand Book of Organizational Development. Thousands Oaks: Tom Cummings Sage, 2005.
- Silva, L.M, A organização sindical face aos novos paradigmas de organização do Trabalho, Revista de Ciências Humanas e Artes, Vol. 13, nº 1, jan./jul. 2007, Campina Grande, janeiro/ julho de 2007.
- Cimbalista S.N., Adversidades no trabalho: a condição de ser trabalhador no sistema de produção flexível na Indústria automobilística brasileira, Florianópolis, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, 2006. Tese (Doutorado).
- Weber, M.. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Martin Claret, 2001.
- Maslow, W. Motivation and Personality. New York: Harper, 1954.
- Wilson, J.M., Wellins, R., Byran, A. Liderança Zapp! Estratégias para liderar organizações através de equipes energizadas. Rio de Janeiro: Campus, 1995. 297.p.
- Boyett, J.H., Boyett, J.T. O Guia dos Gurus: Os Melhores Conceitos e Práticas de Negócios. 4. ed., Rio de janeiro: Campus, 1999, 378 p.
Todos os direitos reservados. Produzido por House Press