O Mundo da Usinagem
No trânsito, no trabalho e em muitas outras situações cotidianas é cada vez mais comum observarmos pessoas irritadiças e impacientes em meio a discussões exacerbadas. Observando estes comportamentos, podemos perceber que a ira também está presente em nossa rotina e, apesar de muitas vezes não estarmos diretamente relacionados à sua manifestação, o incômodo causado por este ‘sentimento’ é inevitável.
Entender porque a ira é provocada, como alguns especialistas definem este sentimento e de que forma podemos lidar com ele é uma forma de fazer com que estas explosões de raiva sejam evitadas ou, ao menos, minimizadas. Desta forma, a Revista O Mundo da Usinagem não pretende versar profundamente sobre o assunto; nossa proposta é apenas discorrer a respeito deste sentimento tão recorrente em nosso cotidiano e sugerir algumas dicas para driblá-lo.
O mais terrível dos sentimentos. É assim que o filósofo Sêneca, que nasceu no ano I da Era Cristã, em Córdoba (Espanha), definiu a ira. O escritor e intelectual dedicou grande parte de sua vida política à função de tutor do famoso imperador romano Nero. Tendo notado que o governante era extremamente intolerante e violento, Sêneca expressou sua indignação por meio do ensaio De Ira – em português, A Ira –, no qual reflete sobre as consequências deste sentimento nocivo ao indivíduo e à sociedade, considerado inclusive um dos sete pecados capitais.
Trazendo esta discussão para o presente, Valquíria Rossi, psicóloga e professora da Universidade Metodista de São Paulo, concorda com os pensamentos de Sêneca. “A ira vem acompanhada de um sentimento de vingança acumulado em decorrência de acontecimentos negativos passados, e o grande malefício da ira é que não se pode prever de que forma o irado extravasará toda estas insatisfações”, esclarece a professora.
Por sua vez, a psicóloga Lucileide Polveiro, do Centro Psicológico de Controle do Estresse de Brasília (DF), defende que a ira é uma resposta a uma situação de estresse – conjunto das perturbações orgânicas e psíquicas que podem ser provocadas por diversos estímulos ou agentes agressores. “Quanto mais estressado um indivíduo está, mais sensível ele fica às questões ambientais e às situações ameaçadoras ao seu redor. Diante disso, a pessoa passa a desenvolver maior intolerância a qualquer tipo de frustração, e uma das respostas a esta insatisfação é a ira”, alerta Lucileide.
Por conta do ritmo de vida cada vez mais acelerado, nos dias atuais o imediatismo está presente em grande parte das ações cotidianas, e a busca por satisfações instantâneas é uma das consequências destes novos costumes. “A ira é desencadeada pela incapacidade de lidar com as frustrações, como se o indivíduo não pudesse ser decepcionado. Se o que planejou foge do controle, a pessoa irada não saberá resolver de outra forma, a não ser por meio da agressividade”, informa Lucileide.
Adotar uma postura mais dissociada e admitir outras possibilidades que não aquela inicial é essencial para quem deseja evitar a ira
Conforme explica José Miguel Carcavilla, biomédico especialista em Programação Neurolinguística (instrumento de estudo que por meio de técnicas específicas investiga a estrutura da experiência subjetiva com a finalidade de usar todas as potencialidades do cérebro humano), é comum que a pessoa irada seja agressiva, pois esta é a forma mais fácil que ela encontra para se restabelecer emocionalmente.
“Quando somos estimulados verbal e fisicamente, recebemos esta incitação como uma informação a ser processada e decodificada por nós. Geramos então um significado para este estímulo, que por sua vez produz um sentimento”, explica Carcavilla. “Deste modo, o sentimento de ira provoca um desequilíbrio interno que tende a ser compensado por meio de uma resposta comportamental. A agressividade é uma delas”, informa.
Assim, quando o irado está prestes a explodir, alguns sintomas podem ser frequentes, como músculos tencionados, taquicardia e sudorese. “Somos seres integrados, o que significa que mente e corpo atuam de forma sistêmica. Por isso, além do psicológico, o sentimento de ira afeta também o físico de quem a sente”, esclarece o biomédico.
O não cumprimento de prazos, a insatisfação diante de um trabalho apresentado e as típicas ocorrências de trânsito são acontecimentos que podem provocar a ‘explosão’ de uma pessoa irada. No documentário Filosofia para o dia-a-dia – Sêneca e a Raiva, lançado pela Editora Abril em 2007, o filósofo suíço Alain de Botton narra as histórias de Wayne Allinghan, um motorista de uma empresa de entregas rápidas, e de Venetia Butterfield, gerente de Marketing de uma editora.
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Apesar de as profissões destes dois londrinos serem distintas, o sentimento de ira é recorrente em suas rotinas. No caso de Allinghan, uma vez ele se irritou de forma excessiva com outro motorista e os dois iniciaram um confronto físico. Já no caso da gerente, o fato de os funcionários de Venetia terem entregado um projeto fora do prazo foi um fato determinante para ela descarregar seu nervosismo sobre os colaboradores.
Com base nestes exemplos, Alain de Botton explica que, de acordo com os conceitos de Sêneca sobre a ira, tanto o motorista quanto a gerente não souberam lidar com as frustrações e, por isso, extravasaram seus sentimentos de forma descontrolada.
Na visão de Sêneca, a melhor maneira de evitar a ira é aceitar que nem tudo ocorre da forma que almejamos. Segundo Carcavilla, uma das formas de impedir que a ira se instale é por meio do emprego da técnica da amplitude perceptiva. “Adotar uma postura mais dissociada e admitir outras possibilidades que não àquela inicial é importante para quem deseja evitar a ira; e cada uma das outras possibilidades adotadas devem ser entendidas como oportunidades de aprendizado”, explica.
Esta mudança de postura também pode ser avaliada como um amadurecimento emocional, pois, ao rever seus valores e ao se questionar sobre as relações humanas que mantém, o indivíduo perceberá que a ira não lhe trará qualquer benefício. Completando este argumento, a psicóloga Valquíria Rossi explica que o melhor exercício para evitar a ira é prestar atenção nos próprios comportamentos: “É difícil olhar analiticamente para si mesmo”, adverte. “Mas, quando os ‘estouros’ são frequentes, o melhor a fazer é parar e refletir, porque algo deve estar errado. Admitir que algo não está bem em nossas vidas é fundamental para conter a ira; mas saber lidar com as frustrações é o principal antídoto para este mal”.
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Há casos em que a pessoa irada não consegue lidar sozinha com o sentimento. Quando isso ocorre, procurar a ajuda de profissionais habilitados é o mais recomendado. A Psicologia oferece a psicoterapia associada à diminuição do nível de ansiedade para tratar deste intenso sentimento de raiva. Já a Programação Neurolinguística dispõe de algumas técnicas de dissociação visual–sinestésica, ou seja, a separação mental da parte emotiva e da parte racional de uma determinada circunstância, o que ajuda a pessoa a lidar de forma mais apropriada com a situação que possa estar provocando a ira.
“A ira nada mais é do que uma luta contra si mesmo. O fato de a pessoa externar seus descontentamentos não elimina os malefícios que provoca para si. Por isso, a força provocada pela ira deve estar equilibrada pelos outros sentimentos”, conclui a psicóloga Lucileide.
Sula Zaleski
Jornalista
Vídeos:
Filosofia para o dia-a-dia, da revista Vida Simples. Editora Abril, 2007
Um dia de fúria, com Michael Douglas, 1993
Livros:
Como transformar defeitos em virtudes, de Carlos Viveiro e Auro Honda. Editora Gente, 1998
Stress e o Turbilhão da Raiva, de Marilda Lipp. Editora Casa do Psicólogo, 2005
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